quarta-feira, 16 de março de 2011

Make love, not war

No outro dia ouvi alguém assegurar que teria um esgotamento nervoso se outra pessoa, ao iniciar a discussão de um tema, fizesse remontar a descoberta aos gregos. Mas, de facto, lendo Lisistrata, percebemos que há poucas coisas que os gregos não conhecessem já. E não me refiro apenas a que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. Na peça de Aristófanes as mulheres gregas, lideradas por Lisistrata, fazem um juramento colectivo de negarem sexo aos seus maridos até estes concordarem em terminar com a Guerra do Peloponeso. É este o texto integral do juramento:

I will not allow either lover or husband

to approach me in a state of erection.

And I will live at home in unsullied chastity

wearing my saffron gown and my sexiest make-up

to inflame my husband’s ardour.

But I will never willingly yield myself to him.

And should he rape me by force against my will

I will submit passively and will not thrust back

I will not raise my slippers towards the ceiling

I will not adopt the lioness-on-a-cheesegrater position.

If I abide by this oath, may I drink from this cup.

Os benefícios de uma educação clássica tornam-se evidentes quando se tenta perceber a posição lioness-on-a-cheesegrater. A peça está repleta de referências históricas e de trocadilhos de natureza sexual, sendo por vezes incerto se é mais adequada ao D. Maria II ou ao Parque Mayer. Fala da expedição ateniense à Sicília e de vibradores fabricados com pele de cão, do ouro da Acrópole e das duas maçãs de Helena de Tróia. É um texto sobre o poder das mulheres, sem ser necessariamente feminista. Um poder baseado no corpo – enorme, assimétrico e para o qual, felizmente, não existem tratados de desarmamento.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Numa conversa casual, com uma pessoa de quem não fixei o nome, fiquei a saber da existência da Biblioteca Residencial Gladstone. O longo edifício de tijolo vermelho fica nos arredores de Chester, uma pequena cidade no Norte de Inglaterra. Tem trinta quartos e duzentos e cinquenta mil livros. Depois do check in pode ir-se até à sala da biblioteca e deixar que as lombadas desfilem em frente aos olhos. Quando se vê um volume de que se goste mais pode-se levá-lo para o quarto para algumas horas de prazer. É o mais próximo que pode existir de bordel literário e ainda parece ter vagas para o fim-de-semana.




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A mim parece-me que estaria sempre bem no lugar em que não estou, e este problema de mudar-me é uma coisa que não cesso de discutir com a minha alma.

«Diz-me tu, minha alma, pobre alma friorenta, que pensarias tu de viver em Lisboa? Deve lá fazer calor, e podias regalar-te como um lagarto. A cidade ergue-se à beira d’água; dizem que é construída de mármore, e que o povo tem tanto ódio ao vegetal que arranca todas as árvores. Eis uma paisagem a teu gosto; uma paisagem feita de luz e de mineral, com o líquido para os reflectir

A minha alma não responde.

Baudelaire, «Any where out of the world», O Spleen de Paris

sábado, 12 de fevereiro de 2011

L., Auto-retrato, Oficina de Francis Bacon, século XXI.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A biblioteca intacta


Encontrei esta fotografia de Holland House. Foi tirada no dia seguinte a uma noite de bombardeamento alemão a Londres, em 1940. O que resta da casa está no meio do parque, a poucas centenas de metros de onde moro. A imagem é da biblioteca, sem tecto, coberta de escombros, mas com as estantes intactas. No meio do entulho, três figuras de rosto encoberto percorrem os olhos e os dedos pelas lombadas dos livros, totalmente absorvidos na leitura de títulos e nomes de autores. Não sabemos os nomes, o que fazem ali ou os livros que levaram consigo para lerem mais tarde no fundo dos abrigos subterrâneos.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Relatório de domingo - Holland Park

Ao fim do dia, os pais começam a reunir as crianças e a encaminhá-las para fora do parque infantil, como pastores. Os pavões sobem para o cimo das árvores, para passarem a noite, num ritual de sobrevivência transmitido por antepassados que viviam entre predadores. São pássaros enormes, sombras enormes entre as sombras das árvores sem folhas. No meio do parque há um edifício em ruínas, destruído por bombas incendiárias em 1940. Na luz do crepúsculo e da iluminação pública alaranjada, parece que ainda está em chamas. Um fogo sem calor. Regressamos a casa rapidamente, expulsos do parque por rajadas de vento.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

2 February 1940

The snow remains, slightly pocked, but the road is clear. I forget to make extracts from the papers, which boom, echoing, emptily, the BBC. Hitler’s speech – Churchill’s – a ship sunk – no survivors – a raft capsized – men rowing for ten or twelve or thirty hours. How little one can explode now, as perhaps one would have done, had it been a single death. But the Black Out is far more murderous than the war. Prices rise twopence then threepence. So the screw tightens gradually; and I can’t even imagine London in peace – the lit nights, the buses roaring past Tavistock Square, the telephone ringing, and I scooping together with the utmost difficulty one night or afternoon alone. Only the fire sets me dreaming – [...]

Virginia Woolf, Diary

domingo, 23 de janeiro de 2011

Noite eleitoral

Nunca assisti a leituras de poesia com mais de vinte ou trinta pessoas presentes, mais de metade das quais geralmente familiares e amigos dos próprios poetas e o resto uma mistura de clientes habituais, representantes das editoras e transeuntes distraídos. Esta noite fui ao Southbank Centre ouvir os finalistas do T.S. Eliot Poetry Prize lerem alguns dos seus poemas, numa sala com duas mil pessoas. Os bilhetes mais baratos custavam cerca de quinze euros. Dos dez finalistas, apenas o Derek Walcott não esteve presente pessoalmente, demasiado idoso e inteligente para abandonar a ilha das Caraíbas onde vive em pleno inverno. As melhores leituras foram as de Simon Armitage (Seeing Stars), Robin Robertson (The Wrecking Light) e Sam Willetts (New Light for the Old Dark). Seamus Heaney, debilitado pela idade, leu alguns dos poemas de Human Chain com o seu sotaque carregado e uma forte tremura nas mãos ao virar as folhas. O vencedor é anunciado amanhã.

Adenda: O vencedor foi Derek Walcott. Não se conhecem ainda os números da abstenção, nem o discurso de vitória. Os restantes poetas reconheceram a derrota de modo cortês e em pentâmetros iâmbicos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

LER

Encontrei, por acaso, uma referência a esta outra Ler, uma revista sem recensões literárias, crónicas ou jornalismo cultural, apenas tornozelos, calcanhares, tarsos, metatarsos, meias para diabéticos e calçado ortopédico. O nome é uma abreviatura de Lower Extremity Review, ou seja, é uma publicação periódica sobre pés. Num dos últimos números, Jordana Bieze Foster, uma espécie de Francisco José Viegas da Lower Extremety Review, dedica o editorial aos chinelos de dedo (Flip-flop Flak). O Rogério Casanova pode escrever análises interessantes sobre Pynchon ou Nabokov, mas nada de tão profundo quanto os artigos de Metin Yavuz, PhD sobre pressão plantar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Liberdade de ensino

No Reino Unido, o sistema educativo não está dividido tanto entre ensino público e privado, mas entre escolas pagas e não pagas. O sistema público é composto por escolas geridas pelas câmaras municipais ou por instituições religiosas ligadas às igrejas anglicana ou católica. E a competição pelas melhores escolas é enorme, com pais verdadeiramente convencidos de que todo o futuro dos seus filhos de cinco anos depende desse factor. Há histórias de famílias que mudam de casa para beneficiarem do critério da proximidade geográfica e de pais que se tornam mais devotos e começam a assistir à missa com maior regularidade, com meses ou anos de antecedência, para poderem beneficiar do critério da crença praticante. À primeira vista, existe maior liberdade de escolha do que no ensino uniformizado português. No entanto, como é um sistema competitivo e de recursos limitados, muitas das famílias têm de optar entre colocar um filho numa escola longínqua, da denominação da sua preferência, ou numa escola mais próxima, de uma denominação contrária à sua fé ou falta de fé. Já entregámos a candidatura da L. Na lista de cinco escolas, duas (as mais próximas de casa) são anglicanas e uma católica. Seja o que o deus e o ministério da educação quiserem...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livro de reclamações

Uma das obras principais de Lord Byron é um longo poema de viagem (Childe Harold’s Pilgrimage), com início em Portugal. Byron entrou num navio para escapar às frustrações da terra natal e desembarcou em Lisboa em 1809. Como legado à posteridade, dedicou vinte stanzas a elogiar a beleza natural de Portugal e a criticar a personalidade e os hábitos de higiene dos portugueses. Diz, na verdade, que é uma pena que tanta beleza seja desperdiçada num povo como o nosso, escravizado pelos invasores franceses e depois pelos salvadores britânicos.

Poor, paltry slaves! Yet born ‘midst noblest scenes –

Why, Nature, waste thy wonders on such men?


Um comentador que ouvi há pouco dizia que o culto de Byron - uma verdadeira pop star do século dezanove - espalhou-se um pouco por toda a Europa, com a excepção compreensível de Portugal. Os portugueses, como todos os povos, gostam de dizer mal de si próprios, mas levam a mal que outros se dediquem a essa actividade. Em especial quando nos comparam desfavoravelmente com os espanhóis:


Well doth the Spanish hind the difference know

‘Twix him and Lusian slave, the lowest of the low.


Mais do que um poema, é o livro de reclamações de um turista inglês.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nada consegue descrever melhor o carácter conservador britânico do que a longevidade das soap operas. The Archers, uma radionovela passada na vila rural imaginária de Ambridge, está no ar desde 1950. Já tem mais de 16 mil episódios e alguns clubes de fãs espalhados pelo país. Parece que existem mesmo referências a episódios da série na correspondência pessoal de Philip Larkin, recentemente publicada em livro. Na televisão, Coronation Street está a fazer cinquenta anos e Eastenders vinte e cinco. É como se a Vila Faia nunca tivesse terminado e o João Godunha continuasse a chorar eternamente a morte da Mariette. Caso queiram saber o que andam a perder, transcrevo a sinopse do episódio de hoje de The Archers:

Kenton is trying to catch up with his last minute Christmas cards when Pat turns up at Lower Loxley to deliver some yoghurts. Elizabeth is in a flap as she hasn’t yet received Lily’s main present: a mobile phone with internet, ordered through the web.

Elizabeth has set up a shot of Kenton as the highwayman surprising some children. It’s a great success and will be featured in the Echo. Next year she hopes to use it in their own publicity.

Tony brings over a replacement present for Helen, a beautiful mobile for the baby. Ian really likes it and encourages Tony to waits and give it her himself. Although Tony would love to, he just leaves it with Ian.

When Helen opens the gift, she thinks it’s pretty, but still feeling very hurt by Tony. She tells Ian that Pat must have put her dad up to it. Helen doesn’t ring Tony, and when Pat suggests Tony might phone his daughter he sadly suggests that he’d better leave her to ring him when she’s ready. But as time goes on, Tony realises that Helen isn’t going to phone him at all.

domingo, 19 de dezembro de 2010

To the castle and back

Ontem metemo-nos no carro com destino a Windsor. Percorremos as ruas da vila e fizemos construções de neve junto às muralhas do castelo, onde não chegámos a entrar. No regresso, num anoitecer prematuro, passámos por um carrossel iluminado no meio da neve e por um parque infantil soterrado na planície gelada. As crianças já dormiam no banco de trás quando, a trinta à hora, entrámos na auto-estrada rumo ao centro de Londres. Há notícias de voos cancelados e de quatro europeus do sul, residentes em Holland Park, alegremente perdidos no meio da neve.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Novo Concerto Estratégico

Os Arcade Fire entraram em palco como um grupo de saltimbancos que toma de assalto a praça central de uma vila medieval, com uma troca incessante de instrumentos entre os elementos da banda e alguns sinais exteriores de loucura. O O2 Arena estava totalmente cheio. É um espaço mais ou menos do tamanho da Pavilhão Atlântico, se percebem o que quero dizer. A Cimeira da Nato deve ter sido boa, aprovou-se um novo conceito estratégico, etc., mas não teve um encore de duas músicas com o público todo a cantar. No final do concerto seguímos a multidão até à estação de metro mais próxima com a primeira neve do ano a cair-nos em cima.

Falar de dois concertos num espaço de tempo reduzido pode transmitir a ideia enganadora de uma vida social intensa, quando se trata apenas de uma coincidência estatística no meio dos dias domésticos e ritualizados. Escurece cedo e está frio. Os inícios das noites são passados a tentar domesticar o D. e a servir de trampolim à L. Depois, com os dois já na cama, sinto-me cansado e satisfeito como no final de um dia de praia.

Nota sobre o aparente uso do plural majestático: Tanto quanto sei, não existe uma única gota de sangue aristocrático na minha família. Parte dos meus textos são escritos no plural porque incluem de modo implícito a J. Na maioria dos casos, é mesmo ela a principal instigadora das nossas saídas, sempre pronta a tentar-me com bilhetes para concertos e anotações coloridas na agenda cultural.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Live at the Brixton Academy

Fomos ontem à Brixton Academy ver os The National. A sala é um antigo teatro Arte Nova, com a dimensão ideal para concertos. O ambiente é uma mistura de Coliseu e Voz do Operário e como fomos dos primeiros a entrar consegui tirar esta foto de uma natureza morta com guitarras, bateria, baixo e a luz dos projectores. O concerto em si foi muito bom. O vocalista começou com uma pose séria e fato e gravata, mas foi-se transformando progressivamente num Caliban alcoolizado, com gritos, convulsões e longas incursões pelo meio do público. No final, já sem forças, cantou a última música (Vanderlyle Crybaby Geeks) sem microfone entre duas guitarras acústicas. Saímos para a noite gelada com um zumbido nos ouvidos e na manhã seguinte, esta manhã, nevou.

domingo, 28 de novembro de 2010

Previsão de tempo para utopia e arredores*

Boa parte dos meus textos têm uma natureza meteorológica. Falar do tempo é uma forma de manter uma conversa quando não se tem assunto. Para além desse aspecto, é verdade que a mudança de Lisboa para Londres é acompanhada por uma maior consciência em relação ao clima. As estações do ano são mais marcadas e as paisagens dos extensos parques públicos mudam de semana a semana. Pelo termómetro, estão -4º C lá fora, o relvado está coberto por uma fina película de gelo. De forma aparentemente paradoxal, nunca passei tão pouco frio no Inverno. As casas estão preparadas para a época e não preciso de andar a arrastar um aquecedor pela trela de uma divisão para a outra ou de ver televisão enrolado numa manta. Quando saimos, com mais camadas de roupa que uma varina da Nazaré, o frio entranha-se com uma força revigorante, como os banhos de mar no primeiro dia do ano a que assistimos pelo telejornal. Um mergulho rápido nas ruas de Londres e depois o regresso ao aquecimento central.

(*Título emprestado por Charles Simic)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tendo passado a infância e adolescência em escolas de Linha de Sintra, não há praticamente nada que não tenha visto ser feito numa sala de aula. Vi professores a chorar, alunos a sairem pela janela ou a jogarem futebol no fundo da sala. Talvez tenha existido uma época idílica em que os estudantes levavam maçãs polidas aos professores e recitavam a tabuada dos sete de pé ao lado da carteira (segundo a minha mãe, até saudavam os professores de braço estendido todas as manhãs), mas isso foi muito antes do meu tempo. E, apesar da aparente insegurança, desde pelo menos os oito anos que passei a ir sozinho para a escola com os meus amigos, num percurso que, a partir do Secundário, incluia uma viagem de comboio que passávamos a trocar cassetes de música ou em coreografias de indiferença com o sexo oposto. Na verdade, na memória selectiva daqueles tempos, só quase me consigo lembrar das tardes de terça-feira passadas a ler o Blitz, das longas conversas atrás do pavilhão com os amigos e dos nomes das raparigas por quem quase morri de amor, vez após vez. Dizem-me que as coisas estão piores, muito piores. É verdade, o Blitz acabou, já não há mais pregão da semana.
Os pessimistas são vistos como sábios, os optimistas como ingénuos. Não há comentário a que o sarcasmo não acrescente um tom de inteligência. No entanto, de um ponto de vista lógico, não há motivo para que as previsões de um pessimista estejam certas mais vezes que as de um optimista. São ambos defeitos de carácter e, como na guerra, temos de escolher um lado. Por isso, embora me digam que o estado social vai acabar dentro de momentos, que os juros da dívida vão atingir os 15%, que o Sporting não voltará a ganhar um campeonato, que isto já não é o que era, sou suficientemente ingénuo para continuar a respirar em tempos de austeridade e a ouvir, enquanto escrevo, a Billie Holiday a cantar Good Morning Heartache, com voz de quem está alegremente resignada a perder o jogo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um dos livros que trouxe da John Sandoe foi Sonnets from the Portuguese de Elizabeth Barret Browning, que nada mais tem de português que o título, com o qual a poeta encobriu a autoria dos poemas, alegando tratarem-se de traduções de textos de origem portuguesa. Aparentemente, o marido de Elizabeth, Robert Browning, tratava-a também por "my little Portuguese", em momentos mais íntimos que a história da literatura conquistou à reserva da vida privada. Um dos sonetos é este:


I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchrul urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see
What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,
It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up... those laurels on thine head,
O my Beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand farther off then! go!
Fui fazer uma visita à John Sandoe, uma pequena livraria de Chelsea onde há livros espalhados por todo o lado, como no sonho de um bibliófilo: nas escadas que levam ao primeiro andar e nas que descem para a cave, alinhados em estantes ou empilhados em montes instáveis. E apesar de há muito as salas exíguas terem perdido o combate com o fluxo constante de livros, os volumes estão arrumados com uma certa ordem, por funcionários que parecem estar conscientes de que têm o melhor emprego do mundo. É utilizado o sistema inverso do da Ler Devagar, na LX Factory, onde o espaço é vasto, mas os livros encontrados apenas com muita sorte e algumas técnicas de alpinismo. Trouxe da John Sandoe algum Robert Frost, John Burnside e Elizabeth Barrett Browning. Se quiserem passar por lá, fica em 10 Blacklands Terrace.

Hora de Inverno

A mudança para a hora de Inverno tem-me deixado sonolento e letárgico. Só me apetece enroscar num canto e esperar que os meses mais frios passem. Os esquilos enterram as últimas nozes nos relvados dos parques e as folhas passaram quase todas dos ramos das árvores para os passeios. As pessoas saem do trabalho para uma noite cerrada antes das cinco da tarde. São já só vultos que se cruzam pelas ruas, a caminho de casa, e entram nas estações de metro com as golas dos sobretudos levantadas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Combate de Outonos


Vista da nossa janela, ontem de manhã. Dedicado à R., que tem uma paisagem semelhante do outro lado do Canal.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O período de duas ou três horas entre o regresso do trabalho e o deitar dos miúdos é um caos de brinquedos, cavalitas, duas crianças a pularem em cima do peito e dos abdominais, escondidas, gargalhadas, banhos e choros. Depois fica tudo silencioso, como agora. A L. e o D. na cama, agarrados aos seus bonecos, a marcar o início do período de duas ou três horas antes de eu próprio me ir deitar. É suposto concentrar nele todas as actividades que não consigo fazer durante o dia, como alimentar o apetite voraz do blogue, ler, ver televisão, adormecer a ver televisão, etc. Às vezes só dá, como hoje, para ouvir os CDs comprados no fim-de-semana numa loja independente de Brighton: The Fall, Interpol, The Psychedelic Furs, Yeah Yeah Yeahs. Uma banda sonora razoável para um fim de dia.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nada reflecte melhor a mudança geracional que está a ocorrer na política britânica do que ouvir o Primeiro-Ministro conservador citar um sketch dos Monty Python num discurso perante militantes: Remember what they said about us? They called us a dead parrot. They said we had ceased to be. That we were an ex-party. Turns out we really were only resting.

Primeiro-Ministro (David Cameron): 44 anos
Líder da oposição (Ed Miliband): 41 anos
Ministro das Finanças (George Osborne): 39 anos

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Todos os momentos históricos têm os seus revisionismos. Nessa história alternativa, hoje seríamos uma monarquia nórdica, rica e igualitária, sem défice público ou corrupção, não tivesse sido a revolução do 5 de Outubro. Acredito profundamente que a implantação da República constituiu um passo importante num processo de modernização do país que ainda não terminou. A Primeira República não foi perfeita, como nenhum regime anterior ou posterior, mas a consolidação do princípio da igualdade perante a lei, a eliminação dos privilégios obtidos pelo nascimento e a separação entre a igreja e o Estado foram conquistas importantes, mesmo com os excessos e retrocessos que se seguiram. Por isso, Viva a República. Como estamos muito longe da Praça do Município e num país monárquico, comemorámos a revolução com uma visita à exposição de Paul Gauguin, na Tate Modern, nove ou dez salas repletas de quadros pintados na Bretanha, em Copenhaga, na Martinica ou no Tahiti. Vimos o Cristo Amarelo e mulheres polinésias semi-nuas, o mar revolto da Bretanha e praias do Pacífico.

domingo, 3 de outubro de 2010

Shakespeare never went to Venice, Homer never went to Troy, Dante never went to hell. Encontrei a citação numa edição atrasada de um suplemento literário. De facto, com alguma imaginação, conseguimos descrever lugares onde nunca estivémos, mas sobre os quais lemos relatos em livros ou vimos cenas em filmes. Em Veneza já estive, primeiro com Thomas Mann e depois com a J., que é muito melhor companhia. E apesar de nunca ter estado em Tróia consigo descrever, sem preocupações de rigor histórico, as muralhas diante das quais Aquiles arrastou o corpo de Heitor. Londres, esta noite, no início do Outono, é uma cidade de relvados húmidos e sapatos enlameados alinhados à porta dos apartamentos. O brilho da iluminação pública reflecte-se nos passeios molhados e, por ser domingo, famílias regressam a casa nos seus automóveis, de onde retiram crianças sonolentas. Para quem não está aqui, Londres terá de ser, hoje, apenas isto.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Câmara de Londres montou um sistema público de bicicletas, muito prático e barato. A promoção foi feita pelo próprio Mayor de Londres, Boris Johnson, o segundo presidente de câmara com mais piada que já tive, depois de Santana Lopes. Encomendei a minha chave de acesso pela internet e, no sábado, quando chegou por correio, fui dar uma volta pelo bairro, acompanhado pela L., veloz ao meu lado pelo passeio na sua trotineta. Lembro-me perfeitamente de ter aprendido a pedalar na bicicleta emprestada do Pedro e incentivado pelos conselhos do Jorge, um vizinho alguns anos mais velho: «-Olha para a frente, não olhes para a roda.» Os londrinos, como quase todos os habitantes do norte da Europa, são grandes adeptos do uso da bicicleta. É frequente ver senhores com pose aristocrática e fato completo a caminho do trabalho montados numa ou mães com sistemas complexos para transportarem bebés. Criado no sul, confesso que estava habituado a encarar as bicicletas como uma primeira etapa rumo a algo maior, mais potente, com mais rodas, jantes de liga leve e estofos de cabedal. Agora, é possível que me vejam de vez em quando a pedalar em direcção ao pôr-do-sol, até desaparecer por entre as multidões que cruzam as ruas de Londres, em todas as direcções, de modo constante, aleatório, coordenado.

domingo, 19 de setembro de 2010

Rescaldo do jogo

Benfica, 2 - Sporting, 0

Dishes, The Pulp
Stars and Sons, Broken Social Scene
Suburban War, Arcade Fire
Obstacle 1, Interpol
I Dreamed I Dream, Sonic Youth
Night Time, Bauhaus
The Cutter, Echo & the Bunnyman
Subterranean Homesick Alien, Radiohead
Runaway, The National
...
A distância é isto, apesar de toda a sofisticação tecnológica, não consigo assistir ao Benfica-Sporting pela internet. Como os idosos na minha infância, tenho o auricular no ouvido, mas não ouço o relato. Pus o walkman no aleatório, para abafar o ruído de um estádio distante, e ele deu-me A Means to an End (Joy Division), Dizzy (Siouxie & the Banshees), Play for Today (The Cure) e The Sweets (Yeah Yeah Yeahs). O Sporting pode estar a perder, mas a seguir na lista vem Rudie Can't Fail (The Clash), o que pelo menos já garante a vitória moral.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quatro Quartetos

Como já contei, comprei num alfarrabista de Camden os Four Quartets, de T.S. Eliot. Agora que o li com mais atenção reparei que o dono original do livro sublinhou a lápis alguns versos do primeiro conjunto de poemas, de que provavelmente terá gostado mais. São frases soltas, em páginas diferentes, que alinhadas ficam assim:

The inner freedom from the practical desire,
A white light still and moving,
Distracted from distraction by distraction,
At the still point of the turning world.

O livro não tem assinatura nem dedicatória e por isso é impossível descobrir o leitor que construiu este poema no interior do poema.
Em Londres, a agenda cultural é muito vasta. Muito mais que o tempo e o dinheiro disponíveis. Perdi, por exemplo, o concerto dos The National, no Royal Albert Hall, e o dos The XX, no norte da cidade, ambos esgotados. Amanhã há o Papa em Hyde Park e as ruas começam a ser encerradas ao trânsito, as bandeirinhas penduradas ao longo do percurso. Os bilhetes nem são caros (entre 5 e 25 libras), mas as músicas já estão um pouco batidas. Para evitar a confusão, vou manter-me afastado do centro da cidade até Domingo, mesmo sabendo que é como ir a Londres e não ver o Papa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pedalar sem mãos

No primeiro ano agimos como estranhos, no segundo como condutores alcoolizados. Sentimo-nos plenamente confiantes enquanto vamos cruzando linhas contínuas e atravessando sinais vermelhos. Sem uma vigília constante, os erros culturais e gramaticais sucedem-se sem que me aperceba. As pequenas conquistas acontecem quando me perguntam por uma ruela estreita do outro lado da cidade e sei indicar o caminho, que autocarro apanhar e o nome de uma pequena loja de antiguidades que existe numa transversal. É quase Outono e, ao fim de um ano, Londres deixou de ser apenas um mapa com nomes exóticos.
O António nasceu hoje, já com nome próprio, livrando-se assim de se chamar Guido, como o santo que se comemora a 12 de Setembro. Quando estamos longe, temos tendência a querer que tudo fique parado, que as pessoas sustenham a respiração, como numa sessão de radiografia, até nós voltarmos. Mas alguns amigos mudam de emprego, outros trocam de namorada e uns, sem qualquer consideração, insistem em ter filhos, sem que nós possamos guiar até à maternidade para pegar na criança ao colo e fumar um charuto imaginário com o pai. Sendo assim, as notícias chegam por telemóvel e as prendas seguem por correio, numa correspondência de afectos. Já só faltam as fotos, para podermos dizer mais tarde, como o Vítor Espadinha, que foi em Setembro que te conheci.

domingo, 5 de setembro de 2010

Depois de quatro semanas divididas entre o Alentejo, Lisboa, Trás-os-Montes e o Douro Litoral, regressei a Londres para uma semana de chuva contínua. No fim-de-semana, quando o tempo melhorou, fui visitar Primrose Hill, na zona norte de Londres. O pretexto foi uma peregrinação à casa onde viveu Sylvia Plath, com os seus dois filhos, e onde se suicidou com a cabeça enfiada no fogão. Levava a morada anotada num papel e fiquei dois ou três minutos em frente ao 23 de Fitzroy Road, apenas o tempo suficiente para satisfazer a curiosidade de turista, antes de me voltar a embrenhar pelas ruas calmas do bairro. Andei perdido e desci gradualmente de Belzise até à agitação de Camden Town. Num alfarrabista do Stables Market andei com a cabeça inclinada pelas lombadas à procura de um livro de Plath, que não encontrei, e em vez disso trouxe uma edição antiga de Four Quartets de T. S. Eliot e, por recomendação do dono, um livro de John Betjeman, de quem não gosto particularmente, para ser simpático e porque custava só cinco libras. Ao sair, recomeçou novamente a chover e apressei o passo com os dois livros a proteger a cabeça, para me relembrar da utilidade da poesia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Regressei há quase duas semanas e ainda estou a fazer o habitual luto do Verão. A pele bronzeada e as fotografias são o que resta dos dias passados entre a toalha e o mar, a fazer construções de areia para os miúdos, ciclicamente destruídas pela rebentação. Trabalhos efémeros, sem objectivo definido, muito retemperadores. Construí dezenas de muralhas e de castelos sem qualquer sensação de tempo perdido, para depois os abandonar de repente, para dar um mergulho no mar, como uma civilização de foge apressada da invasão dos bárbaros deixando para trás ruas e edifícios vazios.
Os clientes já começam a juntar-se à porta, a encostarem a cara aos vidros, mas as cadeiras ainda estão voltadas em cima das mesas e as luzes fechadas. Isto é comércio tradicional: tem horário reduzido, encerra para férias prolongadas e por vezes fica com uma placa na porta a dizer «volto já», quando me apetece ir tomar um café ou dar uma volta pelo bairro. Fico longos períodos sem aparecer. Não é um negócio muito lucrativo nem tem muitos clientes, só os mais habituais, que já se habituaram a ser mal servidos, mas continuam felizmente a aparecer. Sempre é melhor fazer compras enquanto se conversa sobre o tempo ou a Selecção Nacional do que, nas grandes superfícies, se espera de que o tapete rolante vá arrastando as frutas e os legumes para o abismo dos sacos de plástico. Há muitas técnicas para tentar prolongar o Verão, mas eu, infelizmente, já as esgotei a todas. – Seja muito bem-vinda de volta ao nosso estabelecimento, D. Rosa. O que vai ser hoje?...

sábado, 24 de julho de 2010

Encerrado para descanso do pessoal

Informamos os estimados clientes de que este blogue se encontra encerrado para descanso do pessoal até ao final de Agosto. Esperamos que a situação não cause grandes inconvenientes e prometemos regressar com o espaço renovado, a colecção Outono/Inverno e a pele bronzeada.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

It is difficult to find the ideal birthday present for a spouse since she is daily recipient of untold blessings. This year I gave my wife sperm. It was equine sperm. The expensive ejaculation was from the son of the German dressage champion His Highness, of which horsey readers may have heard. The sperm will be turkey-basted into Athena, a refined ‘brumby’, or wild horse, rescued at great cost from the north –western wilderness of Australia. There is hope of a foal next July in which I will pretend to be interested. Barry Humphries, Spectator, 3 de Julho 2010

Não te preocupes J., amanhã dar-te-ei um presente mais aceitável, mesmo que tenha de passar o resto desta noite a vaguear pelas lojas de Londres, a recolher a simpatia das empregadas de pronto-a-vestir, acostumadas a reconhecer a angústia de um homem na véspera do aniversário da mulher.

(Aos meus amigos preocupados em ver-me fazer uma citação da Spectator, posso garantir que a mudança para o Reino Unido não me tornou conservador. Pelo contrário. Leio a revista por dever profissional e, confesso, também por prazer pessoal. Não há nada mais engraçado que ler sobre um mundo que julgava existir apenas nos romances vitorianos ou mesmo em livros de ficção científica.)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Circle line

Ao meu lado esta manhã, numa carruagem de metro cheia de gente, uma rapariga lia um livro de auto-ajuda: How to live an inspired life starting from now. Saí em St. James’s Park e a composição levou-a depois ziguezagueando veloz pelos túneis, como uma serpente que se afasta para digerir a sua presa. Quando chegar ao seu destino, a rapariga fechará o livro e o metro inverterá a marcha, iniciando ambos mais um percurso de uma viagem circular.
E o Verão acabou, a meio de Julho, ou voltará mais tarde, quando já nos tivermos esquecido dele.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mille e tre

Depois de duas ou três semanas de sol e calor, começou a chover. Os parques já estavam a começar a ficar amarelados – muito ligeiramente amarelados –, o que estava a preocupar a população, que trata a relva como um bem de primeira necessidade. Para aproveitar as noites quentes, fomos ontem à noite assistir ao Don Giovanni ao ar livre, em Holland Park. Em Lisboa, na Gulbenkian, temos o Jazz em Agosto, aqui temos ópera no parque. E diverti-me bastante, apesar de gostar mais de jazz que de ópera. Em termos de enredo, o Don Giovanni é uma espécie de telenovela venezuelana, com paixões cruzadas, traições, sentimentos à flor da pele e algum moralismo. Entre os actos, o público dividiu-se entre os parapeitos de pedra do parque, com garrafas de champanhe, vinho branco e rosé e copos de plástico. Para nos ambientarmos, eu e a J. pedimos no bar dois copos de Pims, uma espécie de sangria, mas só já tivemos tempo de beber metade antes de os badalos anunciarem o recomeço do espectáculo e Don Giovanni começar a tentar seduzir mais uma criada.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os ingleses têm uma expressão muito curiosa: tongue in cheek. Já ouvi utilizarem-na muitas vezes, nos contextos mais respeitáveis, mas só agora, após uma busca rápida no Google, consegui descobrir o significado. O problema é que é uma metáfora muito visual e não conseguia perceber o que poderia querer dizer colocar a língua na bochecha de outra pessoa. Mas, afinal, a expressão refere-se a colocarmos a língua na nossa própria bochecha, uma técnica que, se experimentarem, como acredito que estão agora a tentar, verão que não conseguem manter uma cara séria. De facto, os ingleses usam a frase para se referirem a qualquer coisa que não é para levar a sério, geralmente propostas do Governo ou da oposição ou a maioria dos textos que publico aqui.

Há longos períodos em que não me apetece escrever. Quando ouço alguém que diz que sente um impulso físico para a escrita, não sinto sequer inveja, apenas distanciamento e curiosidade, como se estivessem a dizer que são canhotos ou que conseguem tocar com a ponta do polegar no pulso, características que não possuo e me deixam indiferente. Rimbaud remeteu-se ao silêncio público muito novo, mas já tinha escrito o suficiente para uma vida. Eu vou interrompendo o silêncio de forma intermitente, quando quase toda a gente perdeu a esperança de ver aparecer uma data mais recente nos posts do blogue. Se querem saber o que fiz entretanto, basta consultarem o calendário do Mundial. Estive a torcer por equipas que foram sendo sucessivamente eliminadas e agora já só me restam os uruguaios. Também fui tendo tempo para me deitar na relva, de vez em quando, na parte de trás da nossa casa, enquanto os miúdos partilhavam a piscina insuflável dos vizinhos de baixo. Chegam-me notícias do calor em Lisboa, demasiado calor, dizem-me, como se me quisessem consolar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

The Shipwreck, J.M.W. Turner, 1856
Estou a ler uma biografia de William Gladstone, um dos políticos britânicos mais influentes da segunda metade do século XIX. Era um homem meticuloso, que mantinha o seu diário sempre actualizado com pormenores da sua vida pessoal e profissional. Era também bastante religioso e, como tal, com uma percepção muito forte do pecado, que não se abstinha de praticar. Os temas da fraqueza perante as tentações e da culpa são recorrentes nas entradas do diário. Numa tentativa de cura, elaborou uma lista de:

Formas de pecar: 1. Thought, 2. Conversation, 3. Hearing, 4. Seeing, 5. Touch, 6. Company.

Alturas em que estava mais receptivo ao pecado: 1. Idleness, 2. Exhaustion, 3. Absence from usual place, 4. Interruption of usual habits of time, 5. Curiosity of knowledge, 6. Curiosity of sympathy.

Formas de contrariar as tentações ou expiar os pecados: 1. Prayer for blessing on any act about to be done, 2. Realising the presence of the Lord crucified & Enthroned, 3. Immediate pain.

Em resumo, Gladstone frequentava prostitutas e depois autoflagelava-se, não em sentido figurado, mas mesmo com uma chibata. E julgo que é essa a descrição mais fiel da sociedade vitoriana, uma mistura de puritanismo e libertinagem, de culpa e tentativa de absolvição, ambas recorrentes e sem significado.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pente sete

Já andava para cortar o cabelo há alguns dias, mas quando a nossa equipa ganha por 7-0 no Mundial temos de aproveitar a oportunidade para entrar no barbeiro. A conversa é muito mais fluída, entre tesouradas e análise desportiva, eliminando o habitual desconforto de ter de inventar conversa com um quase desconhecido. O barbeiro libanês tem a televisão ligada enquanto trabalha, vê todos os jogos. O cabelo da população de Kensington deve ressentir-se durante as três ou quatro semanas que dura o Mundial.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O tempo em Londres é muito instável. A primeira coisa que se percebe é que nunca ninguém corre quando é surpreendido por um aguaceiro súbito, como se fosse má educação reparar que está a chover. Já vi pessoas de camisa colada ao corpo a andarem à chuva como se estivessem a passear por um prado no sul de França em pleno Agosto. Ninguém exibe, como eu, um ar de pânico ou começa a correr por entre as poças de águas em busca de um parapeito ou de uma porta aberta, como se fugisse à polícia. Lembro-me de, com seis ou sete anos ter discussões filosóficas com os meus amigos, que só os miúdos dessa idade conseguem ter, sobre se nos molhávamos mais se continuássemos a andar devagar ou se corrêssemos, com cálculos complexos sobre a dinâmica das gotas de água. Os britânicos parecem ter tomado posição pela primeira teoria há bastante tempo. Hoje, na hora de almoço, uma chuvada surpreendeu-me em pleno parque e, para não ser mal-educado, continuei a andar normalmente. O meu pai costuma dizer que chuva civil não molha militar, mas eu nem à inspecção fui e por isso cheguei ao trabalho num estado lastimável. O casaco está agora pendurado, a secar, enquanto escrevo.