sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Liberdade de ensino
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Livro de reclamações
Uma das obras principais de Lord Byron é um longo poema de viagem (Childe Harold’s Pilgrimage), com início em Portugal. Byron entrou num navio para escapar às frustrações da terra natal e desembarcou em Lisboa em 1809. Como legado à posteridade, dedicou vinte stanzas a elogiar a beleza natural de Portugal e a criticar a personalidade e os hábitos de higiene dos portugueses. Diz, na verdade, que é uma pena que tanta beleza seja desperdiçada num povo como o nosso, escravizado pelos invasores franceses e depois pelos salvadores britânicos. Poor, paltry slaves! Yet born ‘midst noblest scenes –
Why, Nature, waste thy wonders on such men?
Um comentador que ouvi há pouco dizia que o culto de Byron - uma verdadeira pop star do século dezanove - espalhou-se um pouco por toda a Europa, com a excepção compreensível de Portugal. Os portugueses, como todos os povos, gostam de dizer mal de si próprios, mas levam a mal que outros se dediquem a essa actividade. Em especial quando nos comparam desfavoravelmente com os espanhóis:
Well doth the Spanish hind the difference know
‘Twix him and Lusian slave, the lowest of the low.
Mais do que um poema, é o livro de reclamações de um turista inglês.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Nada consegue descrever melhor o carácter conservador britânico do que a longevidade das soap operas. The Archers, uma radionovela passada na vila rural imaginária de Ambridge, está no ar desde 1950. Já tem mais de 16 mil episódios e alguns clubes de fãs espalhados pelo país. Parece que existem mesmo referências a episódios da série na correspondência pessoal de Philip Larkin, recentemente publicada em livro. Na televisão, Coronation Street está a fazer cinquenta anos e Eastenders vinte e cinco. É como se a Vila Faia nunca tivesse terminado e o João Godunha continuasse a chorar eternamente a morte da Mariette. Caso queiram saber o que andam a perder, transcrevo a sinopse do episódio de hoje de The Archers:
Kenton is trying to catch up with his last minute Christmas cards when Pat turns up at Lower Loxley to deliver some yoghurts. Elizabeth is in a flap as she hasn’t yet received Lily’s main present: a mobile phone with internet, ordered through the web.
Elizabeth has set up a shot of Kenton as the highwayman surprising some children. It’s a great success and will be featured in the Echo. Next year she hopes to use it in their own publicity.
Tony brings over a replacement present for Helen, a beautiful mobile for the baby. Ian really likes it and encourages Tony to waits and give it her himself. Although Tony would love to, he just leaves it with Ian.
domingo, 19 de dezembro de 2010
To the castle and back
Ontem metemo-nos no carro com destino a Windsor. Percorremos as ruas da vila e fizemos construções de neve junto às muralhas do castelo, onde não chegámos a entrar. No regresso, num anoitecer prematuro, passámos por um carrossel iluminado no meio da neve e por um parque infantil soterrado na planície gelada. As crianças já dormiam no banco de trás quando, a trinta à hora, entrámos na auto-estrada rumo ao centro de Londres. Há notícias de voos cancelados e de quatro europeus do sul, residentes em Holland Park, alegremente perdidos no meio da neve.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Novo Concerto Estratégico
Os Arcade Fire entraram em palco como um grupo de saltimbancos que toma de assalto a praça central de uma vila medieval, com uma troca incessante de instrumentos entre os elementos da banda e alguns sinais exteriores de loucura. O O2 Arena estava totalmente cheio. É um espaço mais ou menos do tamanho da Pavilhão Atlântico, se percebem o que quero dizer. A Cimeira da Nato deve ter sido boa, aprovou-se um novo conceito estratégico, etc., mas não teve um encore de duas músicas com o público todo a cantar. No final do concerto seguímos a multidão até à estação de metro mais próxima com a primeira neve do ano a cair-nos em cima.Falar de dois concertos num espaço de tempo reduzido pode transmitir a ideia enganadora de uma vida social intensa, quando se trata apenas de uma coincidência estatística no meio dos dias domésticos e ritualizados. Escurece cedo e está frio. Os inícios das noites são passados a tentar domesticar o D. e a servir de trampolim à L. Depois, com os dois já na cama, sinto-me cansado e satisfeito como no final de um dia de praia.
Nota sobre o aparente uso do plural majestático: Tanto quanto sei, não existe uma única gota de sangue aristocrático na minha família. Parte dos meus textos são escritos no plural porque incluem de modo implícito a J. Na maioria dos casos, é mesmo ela a principal instigadora das nossas saídas, sempre pronta a tentar-me com bilhetes para concertos e anotações coloridas na agenda cultural.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Live at the Brixton Academy
Fomos ontem à Brixton Academy ver os The National. A sala é um antigo teatro Arte Nova, com a dimensão ideal para concertos. O ambiente é uma mistura de Coliseu e Voz do Operário e como fomos dos primeiros a entrar consegui tirar esta foto de uma natureza morta com guitarras, bateria, baixo e a luz dos projectores. O concerto em si foi muito bom. O vocalista começou com uma pose séria e fato e gravata, mas foi-se transformando progressivamente num Caliban alcoolizado, com gritos, convulsões e longas incursões pelo meio do público. No final, já sem forças, cantou a última música (Vanderlyle Crybaby Geeks) sem microfone entre duas guitarras acústicas. Saímos para a noite gelada com um zumbido nos ouvidos e na manhã seguinte, esta manhã, nevou.
domingo, 28 de novembro de 2010
Previsão de tempo para utopia e arredores*
(*Título emprestado por Charles Simic)
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Fui fazer uma visita à John Sandoe, uma pequena livraria de Chelsea onde há livros espalhados por todo o lado, como no sonho de um bibliófilo: nas escadas que levam ao primeiro andar e nas que descem para a cave, alinhados em estantes ou empilhados em montes instáveis. E apesar de há muito as salas exíguas terem perdido o combate com o fluxo constante de livros, os volumes estão arrumados com uma certa ordem, por funcionários que parecem estar conscientes de que têm o melhor emprego do mundo. É utilizado o sistema inverso do da Ler Devagar, na LX Factory, onde o espaço é vasto, mas os livros encontrados apenas com muita sorte e algumas técnicas de alpinismo. Trouxe da John Sandoe algum Robert Frost, John Burnside e Elizabeth Barrett Browning. Se quiserem passar por lá, fica em 10 Blacklands Terrace.
Hora de Inverno
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Primeiro-Ministro (David Cameron): 44 anos
Líder da oposição (Ed Miliband): 41 anos
Ministro das Finanças (George Osborne): 39 anos
terça-feira, 5 de outubro de 2010
domingo, 3 de outubro de 2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
A Câmara de Londres montou um sistema público de bicicletas, muito prático e barato. A promoção foi feita pelo próprio Mayor de Londres, Boris Johnson, o segundo presidente de câmara com mais piada que já tive, depois de Santana Lopes. Encomendei a minha chave de acesso pela internet e, no sábado, quando chegou por correio, fui dar uma volta pelo bairro, acompanhado pela L., veloz ao meu lado pelo passeio na sua trotineta. Lembro-me perfeitamente de ter aprendido a pedalar na bicicleta emprestada do Pedro e incentivado pelos conselhos do Jorge, um vizinho alguns anos mais velho: «-Olha para a frente, não olhes para a roda.» Os londrinos, como quase todos os habitantes do norte da Europa, são grandes adeptos do uso da bicicleta. É frequente ver senhores com pose aristocrática e fato completo a caminho do trabalho montados numa ou mães com sistemas complexos para transportarem bebés. Criado no sul, confesso que estava habituado a encarar as bicicletas como uma primeira etapa rumo a algo maior, mais potente, com mais rodas, jantes de liga leve e estofos de cabedal. Agora, é possível que me vejam de vez em quando a pedalar em direcção ao pôr-do-sol, até desaparecer por entre as multidões que cruzam as ruas de Londres, em todas as direcções, de modo constante, aleatório, coordenado.
domingo, 19 de setembro de 2010
Rescaldo do jogo
Dishes, The Pulp
Stars and Sons, Broken Social Scene
Suburban War, Arcade Fire
Obstacle 1, Interpol
I Dreamed I Dream, Sonic Youth
Night Time, Bauhaus
The Cutter, Echo & the Bunnyman
Subterranean Homesick Alien, Radiohead
Runaway, The National
...
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Quatro Quartetos
The inner freedom from the practical desire,
A white light still and moving,
Distracted from distraction by distraction,
At the still point of the turning world.
O livro não tem assinatura nem dedicatória e por isso é impossível descobrir o leitor que construiu este poema no interior do poema.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Pedalar sem mãos
domingo, 5 de setembro de 2010
Depois de quatro semanas divididas entre o Alentejo, Lisboa, Trás-os-Montes e o Douro Litoral, regressei a Londres para uma semana de chuva contínua. No fim-de-semana, quando o tempo melhorou, fui visitar Primrose Hill, na zona norte de Londres. O pretexto foi uma peregrinação à casa onde viveu Sylvia Plath, com os seus dois filhos, e onde se suicidou com a cabeça enfiada no fogão. Levava a morada anotada num papel e fiquei dois ou três minutos em frente ao 23 de Fitzroy Road, apenas o tempo suficiente para satisfazer a curiosidade de turista, antes de me voltar a embrenhar pelas ruas calmas do bairro. Andei perdido e desci gradualmente de Belzise até à agitação de Camden Town. Num alfarrabista do Stables Market andei com a cabeça inclinada pelas lombadas à procura de um livro de Plath, que não encontrei, e em vez disso trouxe uma edição antiga de Four Quartets de T. S. Eliot e, por recomendação do dono, um livro de John Betjeman, de quem não gosto particularmente, para ser simpático e porque custava só cinco libras. Ao sair, recomeçou novamente a chover e apressei o passo com os dois livros a proteger a cabeça, para me relembrar da utilidade da poesia.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Encerrado para descanso do pessoal
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Não te preocupes J., amanhã dar-te-ei um presente mais aceitável, mesmo que tenha de passar o resto desta noite a vaguear pelas lojas de Londres, a recolher a simpatia das empregadas de pronto-a-vestir, acostumadas a reconhecer a angústia de um homem na véspera do aniversário da mulher.
(Aos meus amigos preocupados em ver-me fazer uma citação da Spectator, posso garantir que a mudança para o Reino Unido não me tornou conservador. Pelo contrário. Leio a revista por dever profissional e, confesso, também por prazer pessoal. Não há nada mais engraçado que ler sobre um mundo que julgava existir apenas nos romances vitorianos ou mesmo em livros de ficção científica.)
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Circle line
terça-feira, 13 de julho de 2010
Mille e tre
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Há longos períodos em que não me apetece escrever. Quando ouço alguém que diz que sente um impulso físico para a escrita, não sinto sequer inveja, apenas distanciamento e curiosidade, como se estivessem a dizer que são canhotos ou que conseguem tocar com a ponta do polegar no pulso, características que não possuo e me deixam indiferente. Rimbaud remeteu-se ao silêncio público muito novo, mas já tinha escrito o suficiente para uma vida. Eu vou interrompendo o silêncio de forma intermitente, quando quase toda a gente perdeu a esperança de ver aparecer uma data mais recente nos posts do blogue. Se querem saber o que fiz entretanto, basta consultarem o calendário do Mundial. Estive a torcer por equipas que foram sendo sucessivamente eliminadas e agora já só me restam os uruguaios. Também fui tendo tempo para me deitar na relva, de vez em quando, na parte de trás da nossa casa, enquanto os miúdos partilhavam a piscina insuflável dos vizinhos de baixo. Chegam-me notícias do calor em Lisboa, demasiado calor, dizem-me, como se me quisessem consolar.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Formas de pecar: 1. Thought, 2. Conversation, 3. Hearing, 4. Seeing, 5. Touch, 6. Company.
Alturas em que estava mais receptivo ao pecado: 1. Idleness, 2. Exhaustion, 3. Absence from usual place, 4. Interruption of usual habits of time, 5. Curiosity of knowledge, 6. Curiosity of sympathy.
Formas de contrariar as tentações ou expiar os pecados: 1. Prayer for blessing on any act about to be done, 2. Realising the presence of the Lord crucified & Enthroned, 3. Immediate pain.
Em resumo, Gladstone frequentava prostitutas e depois autoflagelava-se, não em sentido figurado, mas mesmo com uma chibata. E julgo que é essa a descrição mais fiel da sociedade vitoriana, uma mistura de puritanismo e libertinagem, de culpa e tentativa de absolvição, ambas recorrentes e sem significado.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Pente sete
quarta-feira, 9 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Charing Cross
São tarefas fundamentais do Estado: c) Socializar os meios de produção e a riqueza, através de formas adequadas às características do presente período histórico, criar as condições que permitam promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo, especialmente das classes trabalhadoras, e abolir a exploração e a opressão do homem pelo homem.
ou
Gostaria de inclinar-me sobre o tumulto dos teus violinos. Coloca as mãos no meu inocente nascimento. Vê como dou flor, e durmo.
No regresso à luz do sol, falámos sobre como é esse o destino possível das nossas próprias bibliotecas, ainda em construção: vendidas a alfarrabistas pelos nossos descendentes, num período de dificuldades financeiras, e os volumes depois dispersos, um a um, pelas estantes de pessoas que nunca chegaremos a conhecer, mas que não se importam, tal como nós, de percorrer caves labirínticas de livros usados.
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Todos diferentes, todos iguais
Transcrição (e tradução livre) do monólogo de um taxista londrino obrigado a desviar-se da sua rota habitual devido aos ensaios para o Trooping the Colour, desfile de beefeaters nas celebrações anuais do aniversário da Rainha : domingo, 23 de maio de 2010
"Look," she implored him, pointing at a little troop of boys carrying cricket stumps, and one shuffled, spun round on his heel and shuffled, as if he were acting a clown at the music hall.
Mrs Dalloway, Virginia Woolf (Septimus e Lucrezia em Regent's Park)
segunda-feira, 17 de maio de 2010
Os ociosos que deixam o país natal vão para o estrangeiro por alguma razão ou razões que se podem derivar de uma destas causas gerais -
Enfermidade do corpo,
Imbecilidade do espírito, ou
Necessidade inevitável.
Será suficiente para o meu leitor, se é que ele próprio já se viu na qualidade de viajante, que ele possa, com o devido estudo e reflexão sobre o assunto, determinar a sua própria posição e categoria no catálogo.
Saber que posso restringir a razão do meu exílio a apenas três causas dá-me algum conforto e embora ainda tenha de ler o resto do livro para tentar determinar a causa geral do meu exílio, intuo já que tenha sido uma perfeita conjugação das duas últimas.

