sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Liberdade de ensino

No Reino Unido, o sistema educativo não está dividido tanto entre ensino público e privado, mas entre escolas pagas e não pagas. O sistema público é composto por escolas geridas pelas câmaras municipais ou por instituições religiosas ligadas às igrejas anglicana ou católica. E a competição pelas melhores escolas é enorme, com pais verdadeiramente convencidos de que todo o futuro dos seus filhos de cinco anos depende desse factor. Há histórias de famílias que mudam de casa para beneficiarem do critério da proximidade geográfica e de pais que se tornam mais devotos e começam a assistir à missa com maior regularidade, com meses ou anos de antecedência, para poderem beneficiar do critério da crença praticante. À primeira vista, existe maior liberdade de escolha do que no ensino uniformizado português. No entanto, como é um sistema competitivo e de recursos limitados, muitas das famílias têm de optar entre colocar um filho numa escola longínqua, da denominação da sua preferência, ou numa escola mais próxima, de uma denominação contrária à sua fé ou falta de fé. Já entregámos a candidatura da L. Na lista de cinco escolas, duas (as mais próximas de casa) são anglicanas e uma católica. Seja o que o deus e o ministério da educação quiserem...

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Livro de reclamações

Uma das obras principais de Lord Byron é um longo poema de viagem (Childe Harold’s Pilgrimage), com início em Portugal. Byron entrou num navio para escapar às frustrações da terra natal e desembarcou em Lisboa em 1809. Como legado à posteridade, dedicou vinte stanzas a elogiar a beleza natural de Portugal e a criticar a personalidade e os hábitos de higiene dos portugueses. Diz, na verdade, que é uma pena que tanta beleza seja desperdiçada num povo como o nosso, escravizado pelos invasores franceses e depois pelos salvadores britânicos.

Poor, paltry slaves! Yet born ‘midst noblest scenes –

Why, Nature, waste thy wonders on such men?


Um comentador que ouvi há pouco dizia que o culto de Byron - uma verdadeira pop star do século dezanove - espalhou-se um pouco por toda a Europa, com a excepção compreensível de Portugal. Os portugueses, como todos os povos, gostam de dizer mal de si próprios, mas levam a mal que outros se dediquem a essa actividade. Em especial quando nos comparam desfavoravelmente com os espanhóis:


Well doth the Spanish hind the difference know

‘Twix him and Lusian slave, the lowest of the low.


Mais do que um poema, é o livro de reclamações de um turista inglês.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nada consegue descrever melhor o carácter conservador britânico do que a longevidade das soap operas. The Archers, uma radionovela passada na vila rural imaginária de Ambridge, está no ar desde 1950. Já tem mais de 16 mil episódios e alguns clubes de fãs espalhados pelo país. Parece que existem mesmo referências a episódios da série na correspondência pessoal de Philip Larkin, recentemente publicada em livro. Na televisão, Coronation Street está a fazer cinquenta anos e Eastenders vinte e cinco. É como se a Vila Faia nunca tivesse terminado e o João Godunha continuasse a chorar eternamente a morte da Mariette. Caso queiram saber o que andam a perder, transcrevo a sinopse do episódio de hoje de The Archers:

Kenton is trying to catch up with his last minute Christmas cards when Pat turns up at Lower Loxley to deliver some yoghurts. Elizabeth is in a flap as she hasn’t yet received Lily’s main present: a mobile phone with internet, ordered through the web.

Elizabeth has set up a shot of Kenton as the highwayman surprising some children. It’s a great success and will be featured in the Echo. Next year she hopes to use it in their own publicity.

Tony brings over a replacement present for Helen, a beautiful mobile for the baby. Ian really likes it and encourages Tony to waits and give it her himself. Although Tony would love to, he just leaves it with Ian.

When Helen opens the gift, she thinks it’s pretty, but still feeling very hurt by Tony. She tells Ian that Pat must have put her dad up to it. Helen doesn’t ring Tony, and when Pat suggests Tony might phone his daughter he sadly suggests that he’d better leave her to ring him when she’s ready. But as time goes on, Tony realises that Helen isn’t going to phone him at all.

domingo, 19 de dezembro de 2010

To the castle and back

Ontem metemo-nos no carro com destino a Windsor. Percorremos as ruas da vila e fizemos construções de neve junto às muralhas do castelo, onde não chegámos a entrar. No regresso, num anoitecer prematuro, passámos por um carrossel iluminado no meio da neve e por um parque infantil soterrado na planície gelada. As crianças já dormiam no banco de trás quando, a trinta à hora, entrámos na auto-estrada rumo ao centro de Londres. Há notícias de voos cancelados e de quatro europeus do sul, residentes em Holland Park, alegremente perdidos no meio da neve.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Novo Concerto Estratégico

Os Arcade Fire entraram em palco como um grupo de saltimbancos que toma de assalto a praça central de uma vila medieval, com uma troca incessante de instrumentos entre os elementos da banda e alguns sinais exteriores de loucura. O O2 Arena estava totalmente cheio. É um espaço mais ou menos do tamanho da Pavilhão Atlântico, se percebem o que quero dizer. A Cimeira da Nato deve ter sido boa, aprovou-se um novo conceito estratégico, etc., mas não teve um encore de duas músicas com o público todo a cantar. No final do concerto seguímos a multidão até à estação de metro mais próxima com a primeira neve do ano a cair-nos em cima.

Falar de dois concertos num espaço de tempo reduzido pode transmitir a ideia enganadora de uma vida social intensa, quando se trata apenas de uma coincidência estatística no meio dos dias domésticos e ritualizados. Escurece cedo e está frio. Os inícios das noites são passados a tentar domesticar o D. e a servir de trampolim à L. Depois, com os dois já na cama, sinto-me cansado e satisfeito como no final de um dia de praia.

Nota sobre o aparente uso do plural majestático: Tanto quanto sei, não existe uma única gota de sangue aristocrático na minha família. Parte dos meus textos são escritos no plural porque incluem de modo implícito a J. Na maioria dos casos, é mesmo ela a principal instigadora das nossas saídas, sempre pronta a tentar-me com bilhetes para concertos e anotações coloridas na agenda cultural.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Live at the Brixton Academy

Fomos ontem à Brixton Academy ver os The National. A sala é um antigo teatro Arte Nova, com a dimensão ideal para concertos. O ambiente é uma mistura de Coliseu e Voz do Operário e como fomos dos primeiros a entrar consegui tirar esta foto de uma natureza morta com guitarras, bateria, baixo e a luz dos projectores. O concerto em si foi muito bom. O vocalista começou com uma pose séria e fato e gravata, mas foi-se transformando progressivamente num Caliban alcoolizado, com gritos, convulsões e longas incursões pelo meio do público. No final, já sem forças, cantou a última música (Vanderlyle Crybaby Geeks) sem microfone entre duas guitarras acústicas. Saímos para a noite gelada com um zumbido nos ouvidos e na manhã seguinte, esta manhã, nevou.

domingo, 28 de novembro de 2010

Previsão de tempo para utopia e arredores*

Boa parte dos meus textos têm uma natureza meteorológica. Falar do tempo é uma forma de manter uma conversa quando não se tem assunto. Para além desse aspecto, é verdade que a mudança de Lisboa para Londres é acompanhada por uma maior consciência em relação ao clima. As estações do ano são mais marcadas e as paisagens dos extensos parques públicos mudam de semana a semana. Pelo termómetro, estão -4º C lá fora, o relvado está coberto por uma fina película de gelo. De forma aparentemente paradoxal, nunca passei tão pouco frio no Inverno. As casas estão preparadas para a época e não preciso de andar a arrastar um aquecedor pela trela de uma divisão para a outra ou de ver televisão enrolado numa manta. Quando saimos, com mais camadas de roupa que uma varina da Nazaré, o frio entranha-se com uma força revigorante, como os banhos de mar no primeiro dia do ano a que assistimos pelo telejornal. Um mergulho rápido nas ruas de Londres e depois o regresso ao aquecimento central.

(*Título emprestado por Charles Simic)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tendo passado a infância e adolescência em escolas de Linha de Sintra, não há praticamente nada que não tenha visto ser feito numa sala de aula. Vi professores a chorar, alunos a sairem pela janela ou a jogarem futebol no fundo da sala. Talvez tenha existido uma época idílica em que os estudantes levavam maçãs polidas aos professores e recitavam a tabuada dos sete de pé ao lado da carteira (segundo a minha mãe, até saudavam os professores de braço estendido todas as manhãs), mas isso foi muito antes do meu tempo. E, apesar da aparente insegurança, desde pelo menos os oito anos que passei a ir sozinho para a escola com os meus amigos, num percurso que, a partir do Secundário, incluia uma viagem de comboio que passávamos a trocar cassetes de música ou em coreografias de indiferença com o sexo oposto. Na verdade, na memória selectiva daqueles tempos, só quase me consigo lembrar das tardes de terça-feira passadas a ler o Blitz, das longas conversas atrás do pavilhão com os amigos e dos nomes das raparigas por quem quase morri de amor, vez após vez. Dizem-me que as coisas estão piores, muito piores. É verdade, o Blitz acabou, já não há mais pregão da semana.
Os pessimistas são vistos como sábios, os optimistas como ingénuos. Não há comentário a que o sarcasmo não acrescente um tom de inteligência. No entanto, de um ponto de vista lógico, não há motivo para que as previsões de um pessimista estejam certas mais vezes que as de um optimista. São ambos defeitos de carácter e, como na guerra, temos de escolher um lado. Por isso, embora me digam que o estado social vai acabar dentro de momentos, que os juros da dívida vão atingir os 15%, que o Sporting não voltará a ganhar um campeonato, que isto já não é o que era, sou suficientemente ingénuo para continuar a respirar em tempos de austeridade e a ouvir, enquanto escrevo, a Billie Holiday a cantar Good Morning Heartache, com voz de quem está alegremente resignada a perder o jogo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um dos livros que trouxe da John Sandoe foi Sonnets from the Portuguese de Elizabeth Barret Browning, que nada mais tem de português que o título, com o qual a poeta encobriu a autoria dos poemas, alegando tratarem-se de traduções de textos de origem portuguesa. Aparentemente, o marido de Elizabeth, Robert Browning, tratava-a também por "my little Portuguese", em momentos mais íntimos que a história da literatura conquistou à reserva da vida privada. Um dos sonetos é este:


I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchrul urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see
What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,
It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up... those laurels on thine head,
O my Beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand farther off then! go!
Fui fazer uma visita à John Sandoe, uma pequena livraria de Chelsea onde há livros espalhados por todo o lado, como no sonho de um bibliófilo: nas escadas que levam ao primeiro andar e nas que descem para a cave, alinhados em estantes ou empilhados em montes instáveis. E apesar de há muito as salas exíguas terem perdido o combate com o fluxo constante de livros, os volumes estão arrumados com uma certa ordem, por funcionários que parecem estar conscientes de que têm o melhor emprego do mundo. É utilizado o sistema inverso do da Ler Devagar, na LX Factory, onde o espaço é vasto, mas os livros encontrados apenas com muita sorte e algumas técnicas de alpinismo. Trouxe da John Sandoe algum Robert Frost, John Burnside e Elizabeth Barrett Browning. Se quiserem passar por lá, fica em 10 Blacklands Terrace.

Hora de Inverno

A mudança para a hora de Inverno tem-me deixado sonolento e letárgico. Só me apetece enroscar num canto e esperar que os meses mais frios passem. Os esquilos enterram as últimas nozes nos relvados dos parques e as folhas passaram quase todas dos ramos das árvores para os passeios. As pessoas saem do trabalho para uma noite cerrada antes das cinco da tarde. São já só vultos que se cruzam pelas ruas, a caminho de casa, e entram nas estações de metro com as golas dos sobretudos levantadas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Combate de Outonos


Vista da nossa janela, ontem de manhã. Dedicado à R., que tem uma paisagem semelhante do outro lado do Canal.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O período de duas ou três horas entre o regresso do trabalho e o deitar dos miúdos é um caos de brinquedos, cavalitas, duas crianças a pularem em cima do peito e dos abdominais, escondidas, gargalhadas, banhos e choros. Depois fica tudo silencioso, como agora. A L. e o D. na cama, agarrados aos seus bonecos, a marcar o início do período de duas ou três horas antes de eu próprio me ir deitar. É suposto concentrar nele todas as actividades que não consigo fazer durante o dia, como alimentar o apetite voraz do blogue, ler, ver televisão, adormecer a ver televisão, etc. Às vezes só dá, como hoje, para ouvir os CDs comprados no fim-de-semana numa loja independente de Brighton: The Fall, Interpol, The Psychedelic Furs, Yeah Yeah Yeahs. Uma banda sonora razoável para um fim de dia.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nada reflecte melhor a mudança geracional que está a ocorrer na política britânica do que ouvir o Primeiro-Ministro conservador citar um sketch dos Monty Python num discurso perante militantes: Remember what they said about us? They called us a dead parrot. They said we had ceased to be. That we were an ex-party. Turns out we really were only resting.

Primeiro-Ministro (David Cameron): 44 anos
Líder da oposição (Ed Miliband): 41 anos
Ministro das Finanças (George Osborne): 39 anos

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Todos os momentos históricos têm os seus revisionismos. Nessa história alternativa, hoje seríamos uma monarquia nórdica, rica e igualitária, sem défice público ou corrupção, não tivesse sido a revolução do 5 de Outubro. Acredito profundamente que a implantação da República constituiu um passo importante num processo de modernização do país que ainda não terminou. A Primeira República não foi perfeita, como nenhum regime anterior ou posterior, mas a consolidação do princípio da igualdade perante a lei, a eliminação dos privilégios obtidos pelo nascimento e a separação entre a igreja e o Estado foram conquistas importantes, mesmo com os excessos e retrocessos que se seguiram. Por isso, Viva a República. Como estamos muito longe da Praça do Município e num país monárquico, comemorámos a revolução com uma visita à exposição de Paul Gauguin, na Tate Modern, nove ou dez salas repletas de quadros pintados na Bretanha, em Copenhaga, na Martinica ou no Tahiti. Vimos o Cristo Amarelo e mulheres polinésias semi-nuas, o mar revolto da Bretanha e praias do Pacífico.

domingo, 3 de outubro de 2010

Shakespeare never went to Venice, Homer never went to Troy, Dante never went to hell. Encontrei a citação numa edição atrasada de um suplemento literário. De facto, com alguma imaginação, conseguimos descrever lugares onde nunca estivémos, mas sobre os quais lemos relatos em livros ou vimos cenas em filmes. Em Veneza já estive, primeiro com Thomas Mann e depois com a J., que é muito melhor companhia. E apesar de nunca ter estado em Tróia consigo descrever, sem preocupações de rigor histórico, as muralhas diante das quais Aquiles arrastou o corpo de Heitor. Londres, esta noite, no início do Outono, é uma cidade de relvados húmidos e sapatos enlameados alinhados à porta dos apartamentos. O brilho da iluminação pública reflecte-se nos passeios molhados e, por ser domingo, famílias regressam a casa nos seus automóveis, de onde retiram crianças sonolentas. Para quem não está aqui, Londres terá de ser, hoje, apenas isto.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A Câmara de Londres montou um sistema público de bicicletas, muito prático e barato. A promoção foi feita pelo próprio Mayor de Londres, Boris Johnson, o segundo presidente de câmara com mais piada que já tive, depois de Santana Lopes. Encomendei a minha chave de acesso pela internet e, no sábado, quando chegou por correio, fui dar uma volta pelo bairro, acompanhado pela L., veloz ao meu lado pelo passeio na sua trotineta. Lembro-me perfeitamente de ter aprendido a pedalar na bicicleta emprestada do Pedro e incentivado pelos conselhos do Jorge, um vizinho alguns anos mais velho: «-Olha para a frente, não olhes para a roda.» Os londrinos, como quase todos os habitantes do norte da Europa, são grandes adeptos do uso da bicicleta. É frequente ver senhores com pose aristocrática e fato completo a caminho do trabalho montados numa ou mães com sistemas complexos para transportarem bebés. Criado no sul, confesso que estava habituado a encarar as bicicletas como uma primeira etapa rumo a algo maior, mais potente, com mais rodas, jantes de liga leve e estofos de cabedal. Agora, é possível que me vejam de vez em quando a pedalar em direcção ao pôr-do-sol, até desaparecer por entre as multidões que cruzam as ruas de Londres, em todas as direcções, de modo constante, aleatório, coordenado.

domingo, 19 de setembro de 2010

Rescaldo do jogo

Benfica, 2 - Sporting, 0

Dishes, The Pulp
Stars and Sons, Broken Social Scene
Suburban War, Arcade Fire
Obstacle 1, Interpol
I Dreamed I Dream, Sonic Youth
Night Time, Bauhaus
The Cutter, Echo & the Bunnyman
Subterranean Homesick Alien, Radiohead
Runaway, The National
...
A distância é isto, apesar de toda a sofisticação tecnológica, não consigo assistir ao Benfica-Sporting pela internet. Como os idosos na minha infância, tenho o auricular no ouvido, mas não ouço o relato. Pus o walkman no aleatório, para abafar o ruído de um estádio distante, e ele deu-me A Means to an End (Joy Division), Dizzy (Siouxie & the Banshees), Play for Today (The Cure) e The Sweets (Yeah Yeah Yeahs). O Sporting pode estar a perder, mas a seguir na lista vem Rudie Can't Fail (The Clash), o que pelo menos já garante a vitória moral.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Quatro Quartetos

Como já contei, comprei num alfarrabista de Camden os Four Quartets, de T.S. Eliot. Agora que o li com mais atenção reparei que o dono original do livro sublinhou a lápis alguns versos do primeiro conjunto de poemas, de que provavelmente terá gostado mais. São frases soltas, em páginas diferentes, que alinhadas ficam assim:

The inner freedom from the practical desire,
A white light still and moving,
Distracted from distraction by distraction,
At the still point of the turning world.

O livro não tem assinatura nem dedicatória e por isso é impossível descobrir o leitor que construiu este poema no interior do poema.
Em Londres, a agenda cultural é muito vasta. Muito mais que o tempo e o dinheiro disponíveis. Perdi, por exemplo, o concerto dos The National, no Royal Albert Hall, e o dos The XX, no norte da cidade, ambos esgotados. Amanhã há o Papa em Hyde Park e as ruas começam a ser encerradas ao trânsito, as bandeirinhas penduradas ao longo do percurso. Os bilhetes nem são caros (entre 5 e 25 libras), mas as músicas já estão um pouco batidas. Para evitar a confusão, vou manter-me afastado do centro da cidade até Domingo, mesmo sabendo que é como ir a Londres e não ver o Papa.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Pedalar sem mãos

No primeiro ano agimos como estranhos, no segundo como condutores alcoolizados. Sentimo-nos plenamente confiantes enquanto vamos cruzando linhas contínuas e atravessando sinais vermelhos. Sem uma vigília constante, os erros culturais e gramaticais sucedem-se sem que me aperceba. As pequenas conquistas acontecem quando me perguntam por uma ruela estreita do outro lado da cidade e sei indicar o caminho, que autocarro apanhar e o nome de uma pequena loja de antiguidades que existe numa transversal. É quase Outono e, ao fim de um ano, Londres deixou de ser apenas um mapa com nomes exóticos.
O António nasceu hoje, já com nome próprio, livrando-se assim de se chamar Guido, como o santo que se comemora a 12 de Setembro. Quando estamos longe, temos tendência a querer que tudo fique parado, que as pessoas sustenham a respiração, como numa sessão de radiografia, até nós voltarmos. Mas alguns amigos mudam de emprego, outros trocam de namorada e uns, sem qualquer consideração, insistem em ter filhos, sem que nós possamos guiar até à maternidade para pegar na criança ao colo e fumar um charuto imaginário com o pai. Sendo assim, as notícias chegam por telemóvel e as prendas seguem por correio, numa correspondência de afectos. Já só faltam as fotos, para podermos dizer mais tarde, como o Vítor Espadinha, que foi em Setembro que te conheci.

domingo, 5 de setembro de 2010

Depois de quatro semanas divididas entre o Alentejo, Lisboa, Trás-os-Montes e o Douro Litoral, regressei a Londres para uma semana de chuva contínua. No fim-de-semana, quando o tempo melhorou, fui visitar Primrose Hill, na zona norte de Londres. O pretexto foi uma peregrinação à casa onde viveu Sylvia Plath, com os seus dois filhos, e onde se suicidou com a cabeça enfiada no fogão. Levava a morada anotada num papel e fiquei dois ou três minutos em frente ao 23 de Fitzroy Road, apenas o tempo suficiente para satisfazer a curiosidade de turista, antes de me voltar a embrenhar pelas ruas calmas do bairro. Andei perdido e desci gradualmente de Belzise até à agitação de Camden Town. Num alfarrabista do Stables Market andei com a cabeça inclinada pelas lombadas à procura de um livro de Plath, que não encontrei, e em vez disso trouxe uma edição antiga de Four Quartets de T. S. Eliot e, por recomendação do dono, um livro de John Betjeman, de quem não gosto particularmente, para ser simpático e porque custava só cinco libras. Ao sair, recomeçou novamente a chover e apressei o passo com os dois livros a proteger a cabeça, para me relembrar da utilidade da poesia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Regressei há quase duas semanas e ainda estou a fazer o habitual luto do Verão. A pele bronzeada e as fotografias são o que resta dos dias passados entre a toalha e o mar, a fazer construções de areia para os miúdos, ciclicamente destruídas pela rebentação. Trabalhos efémeros, sem objectivo definido, muito retemperadores. Construí dezenas de muralhas e de castelos sem qualquer sensação de tempo perdido, para depois os abandonar de repente, para dar um mergulho no mar, como uma civilização de foge apressada da invasão dos bárbaros deixando para trás ruas e edifícios vazios.
Os clientes já começam a juntar-se à porta, a encostarem a cara aos vidros, mas as cadeiras ainda estão voltadas em cima das mesas e as luzes fechadas. Isto é comércio tradicional: tem horário reduzido, encerra para férias prolongadas e por vezes fica com uma placa na porta a dizer «volto já», quando me apetece ir tomar um café ou dar uma volta pelo bairro. Fico longos períodos sem aparecer. Não é um negócio muito lucrativo nem tem muitos clientes, só os mais habituais, que já se habituaram a ser mal servidos, mas continuam felizmente a aparecer. Sempre é melhor fazer compras enquanto se conversa sobre o tempo ou a Selecção Nacional do que, nas grandes superfícies, se espera de que o tapete rolante vá arrastando as frutas e os legumes para o abismo dos sacos de plástico. Há muitas técnicas para tentar prolongar o Verão, mas eu, infelizmente, já as esgotei a todas. – Seja muito bem-vinda de volta ao nosso estabelecimento, D. Rosa. O que vai ser hoje?...

sábado, 24 de julho de 2010

Encerrado para descanso do pessoal

Informamos os estimados clientes de que este blogue se encontra encerrado para descanso do pessoal até ao final de Agosto. Esperamos que a situação não cause grandes inconvenientes e prometemos regressar com o espaço renovado, a colecção Outono/Inverno e a pele bronzeada.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

It is difficult to find the ideal birthday present for a spouse since she is daily recipient of untold blessings. This year I gave my wife sperm. It was equine sperm. The expensive ejaculation was from the son of the German dressage champion His Highness, of which horsey readers may have heard. The sperm will be turkey-basted into Athena, a refined ‘brumby’, or wild horse, rescued at great cost from the north –western wilderness of Australia. There is hope of a foal next July in which I will pretend to be interested. Barry Humphries, Spectator, 3 de Julho 2010

Não te preocupes J., amanhã dar-te-ei um presente mais aceitável, mesmo que tenha de passar o resto desta noite a vaguear pelas lojas de Londres, a recolher a simpatia das empregadas de pronto-a-vestir, acostumadas a reconhecer a angústia de um homem na véspera do aniversário da mulher.

(Aos meus amigos preocupados em ver-me fazer uma citação da Spectator, posso garantir que a mudança para o Reino Unido não me tornou conservador. Pelo contrário. Leio a revista por dever profissional e, confesso, também por prazer pessoal. Não há nada mais engraçado que ler sobre um mundo que julgava existir apenas nos romances vitorianos ou mesmo em livros de ficção científica.)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Circle line

Ao meu lado esta manhã, numa carruagem de metro cheia de gente, uma rapariga lia um livro de auto-ajuda: How to live an inspired life starting from now. Saí em St. James’s Park e a composição levou-a depois ziguezagueando veloz pelos túneis, como uma serpente que se afasta para digerir a sua presa. Quando chegar ao seu destino, a rapariga fechará o livro e o metro inverterá a marcha, iniciando ambos mais um percurso de uma viagem circular.
E o Verão acabou, a meio de Julho, ou voltará mais tarde, quando já nos tivermos esquecido dele.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Mille e tre

Depois de duas ou três semanas de sol e calor, começou a chover. Os parques já estavam a começar a ficar amarelados – muito ligeiramente amarelados –, o que estava a preocupar a população, que trata a relva como um bem de primeira necessidade. Para aproveitar as noites quentes, fomos ontem à noite assistir ao Don Giovanni ao ar livre, em Holland Park. Em Lisboa, na Gulbenkian, temos o Jazz em Agosto, aqui temos ópera no parque. E diverti-me bastante, apesar de gostar mais de jazz que de ópera. Em termos de enredo, o Don Giovanni é uma espécie de telenovela venezuelana, com paixões cruzadas, traições, sentimentos à flor da pele e algum moralismo. Entre os actos, o público dividiu-se entre os parapeitos de pedra do parque, com garrafas de champanhe, vinho branco e rosé e copos de plástico. Para nos ambientarmos, eu e a J. pedimos no bar dois copos de Pims, uma espécie de sangria, mas só já tivemos tempo de beber metade antes de os badalos anunciarem o recomeço do espectáculo e Don Giovanni começar a tentar seduzir mais uma criada.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os ingleses têm uma expressão muito curiosa: tongue in cheek. Já ouvi utilizarem-na muitas vezes, nos contextos mais respeitáveis, mas só agora, após uma busca rápida no Google, consegui descobrir o significado. O problema é que é uma metáfora muito visual e não conseguia perceber o que poderia querer dizer colocar a língua na bochecha de outra pessoa. Mas, afinal, a expressão refere-se a colocarmos a língua na nossa própria bochecha, uma técnica que, se experimentarem, como acredito que estão agora a tentar, verão que não conseguem manter uma cara séria. De facto, os ingleses usam a frase para se referirem a qualquer coisa que não é para levar a sério, geralmente propostas do Governo ou da oposição ou a maioria dos textos que publico aqui.

Há longos períodos em que não me apetece escrever. Quando ouço alguém que diz que sente um impulso físico para a escrita, não sinto sequer inveja, apenas distanciamento e curiosidade, como se estivessem a dizer que são canhotos ou que conseguem tocar com a ponta do polegar no pulso, características que não possuo e me deixam indiferente. Rimbaud remeteu-se ao silêncio público muito novo, mas já tinha escrito o suficiente para uma vida. Eu vou interrompendo o silêncio de forma intermitente, quando quase toda a gente perdeu a esperança de ver aparecer uma data mais recente nos posts do blogue. Se querem saber o que fiz entretanto, basta consultarem o calendário do Mundial. Estive a torcer por equipas que foram sendo sucessivamente eliminadas e agora já só me restam os uruguaios. Também fui tendo tempo para me deitar na relva, de vez em quando, na parte de trás da nossa casa, enquanto os miúdos partilhavam a piscina insuflável dos vizinhos de baixo. Chegam-me notícias do calor em Lisboa, demasiado calor, dizem-me, como se me quisessem consolar.

terça-feira, 22 de junho de 2010

The Shipwreck, J.M.W. Turner, 1856
Estou a ler uma biografia de William Gladstone, um dos políticos britânicos mais influentes da segunda metade do século XIX. Era um homem meticuloso, que mantinha o seu diário sempre actualizado com pormenores da sua vida pessoal e profissional. Era também bastante religioso e, como tal, com uma percepção muito forte do pecado, que não se abstinha de praticar. Os temas da fraqueza perante as tentações e da culpa são recorrentes nas entradas do diário. Numa tentativa de cura, elaborou uma lista de:

Formas de pecar: 1. Thought, 2. Conversation, 3. Hearing, 4. Seeing, 5. Touch, 6. Company.

Alturas em que estava mais receptivo ao pecado: 1. Idleness, 2. Exhaustion, 3. Absence from usual place, 4. Interruption of usual habits of time, 5. Curiosity of knowledge, 6. Curiosity of sympathy.

Formas de contrariar as tentações ou expiar os pecados: 1. Prayer for blessing on any act about to be done, 2. Realising the presence of the Lord crucified & Enthroned, 3. Immediate pain.

Em resumo, Gladstone frequentava prostitutas e depois autoflagelava-se, não em sentido figurado, mas mesmo com uma chibata. E julgo que é essa a descrição mais fiel da sociedade vitoriana, uma mistura de puritanismo e libertinagem, de culpa e tentativa de absolvição, ambas recorrentes e sem significado.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pente sete

Já andava para cortar o cabelo há alguns dias, mas quando a nossa equipa ganha por 7-0 no Mundial temos de aproveitar a oportunidade para entrar no barbeiro. A conversa é muito mais fluída, entre tesouradas e análise desportiva, eliminando o habitual desconforto de ter de inventar conversa com um quase desconhecido. O barbeiro libanês tem a televisão ligada enquanto trabalha, vê todos os jogos. O cabelo da população de Kensington deve ressentir-se durante as três ou quatro semanas que dura o Mundial.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O tempo em Londres é muito instável. A primeira coisa que se percebe é que nunca ninguém corre quando é surpreendido por um aguaceiro súbito, como se fosse má educação reparar que está a chover. Já vi pessoas de camisa colada ao corpo a andarem à chuva como se estivessem a passear por um prado no sul de França em pleno Agosto. Ninguém exibe, como eu, um ar de pânico ou começa a correr por entre as poças de águas em busca de um parapeito ou de uma porta aberta, como se fugisse à polícia. Lembro-me de, com seis ou sete anos ter discussões filosóficas com os meus amigos, que só os miúdos dessa idade conseguem ter, sobre se nos molhávamos mais se continuássemos a andar devagar ou se corrêssemos, com cálculos complexos sobre a dinâmica das gotas de água. Os britânicos parecem ter tomado posição pela primeira teoria há bastante tempo. Hoje, na hora de almoço, uma chuvada surpreendeu-me em pleno parque e, para não ser mal-educado, continuei a andar normalmente. O meu pai costuma dizer que chuva civil não molha militar, mas eu nem à inspecção fui e por isso cheguei ao trabalho num estado lastimável. O casaco está agora pendurado, a secar, enquanto escrevo.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Charing Cross

Eu e o V. andámos perdidos pelos alfarrabistas de Charing Cross, entre estantes de livros raros e caves de livros em saldos, a onde se desce com uma sensação de perigo. Numa delas, por mero acaso, deparámo-nos com uma estante repleta de livros portugueses. Trouxe a Poesia Toda do Herberto Heder (Assírio & Alvim) e a Constituição da República Portuguesa de 1976 (INCM), cada um por uma libra, cada um com frases misteriosas como estas:

São tarefas fundamentais do Estado: c) Socializar os meios de produção e a riqueza, através de formas adequadas às características do presente período histórico, criar as condições que permitam promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo, especialmente das classes trabalhadoras, e abolir a exploração e a opressão do homem pelo homem.

ou

Gostaria de inclinar-me sobre o tumulto dos teus violinos. Coloca as mãos no meu inocente nascimento. Vê como dou flor, e durmo.

No regresso à luz do sol, falámos sobre como é esse o destino possível das nossas próprias bibliotecas, ainda em construção: vendidas a alfarrabistas pelos nossos descendentes, num período de dificuldades financeiras, e os volumes depois dispersos, um a um, pelas estantes de pessoas que nunca chegaremos a conhecer, mas que não se importam, tal como nós, de percorrer caves labirínticas de livros usados.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Todos diferentes, todos iguais

Transcrição (e tradução livre) do monólogo de um taxista londrino obrigado a desviar-se da sua rota habitual devido aos ensaios para o Trooping the Colour, desfile de beefeaters nas celebrações anuais do aniversário da Rainha :

Adoro desfiles militares, com a música e os soldados de fardas vermelhas a marcharem, mas a Família Real era fuzilá-los a todos, bando de inaladores de cocaína e de corruptos. Na Praça Vermelha puseram lá o Lenine e as pessoas esperam horas para ver o corpo, aqui ficam vinte minutos em frente ao Palácio de Buckingham e vão-se embora. Devia morrer alguém para isto animar. Podiam mesmo empalhar a Rainha Mãe e colocá-la numa praça da cidade, para aumentar o turismo.

domingo, 23 de maio de 2010

Passámos o fim-de-semana à deriva num tapete azul, de relvado em relvado. Uma jangada de dois metros por um e meio, com paragens na parte de trás da nossa casa e um pouco por todo o lado em Regent's Park. Ainda não tínhamos visitado o parque, por ficar do outro lado da cidade e por não faltarem espaços verdes mais perto de nós. Conhecia-o apenas das longas descrições nos livros da Virginia Woolf, com as quais nos podemos orientar por Londres melhor do que com o Google Maps ou o Via Michelin. Estivémos ao lado de uma jovem família muçulmana, de mulher totalmente coberta e marido vestido de forma ocidentalizada, e mais tarde ao lado de uma rapariga em biquini, quase topless. Por todo o lado famílias deitadas na relva e rapazes e raparigas a jogarem futebol, cricket ou rugby. Estivémos deitados no tapete azul, à sombra, e de vez em quando um dos miúdos aventurava-se no interminável e sereno aceano de relva.
Away from people—they must get away from people, he said (jumping up), right away over there, where there were chairs beneath a tree and the long slope of the park dipped like a length of green stuff with a ceiling cloth of blue and pink smoke high above, and there was a rampart of far irregular houses hazed in smoke, the traffic hummed in a circle, and on the right, dun-coloured animals stretched long necks over the Zoo palings, barking, howling. There they sat down under a tree.
"Look," she implored him, pointing at a little troop of boys carrying cricket stumps, and one shuffled, spun round on his heel and shuffled, as if he were acting a clown at the music hall.

Mrs Dalloway, Virginia Woolf (Septimus e Lucrezia em Regent's Park)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Lembro-me de o A. dizer que há uma certa estranheza quando os jogadores de futebol começam a ser mais novos do que nós. Estamos a atingir uma fase de transição semelhante, quando os governantes são quase da nossa idade. O novo Primeiro-Ministro britânico tem apenas mais sete anos do que eu e o Ministro das Finanças apenas mais dois. Ou seja, o homem que vai tentar cortar seis mil milhões de libras de despesa pública já este ano poderia, num cenário não totalmente inconcebível, ter andado na escola comigo. Não somos nós que estamos a ficar muito velhos, mas os políticos a atingirem posições elevadas demasiado cedo, consequência de uma cultura que privilegia a juventude. Apesar de a mudança em si não ser positiva ou negativa, teria algum pudor em entregar os meus impostos a quem provavelmente participou em moches ao som dos The Clash ou dos Ramones há menos de duas décadas ou que de forma intuitiva esteja sempre à espera de que após quatro ou cinco músicas animadas comece a tocar um slow.
Comprei na Feira do Livro Uma Viagem Sentimental de Laurence Sterne (1713-1768), apenas por ter na contracapa este excerto:

Os ociosos que deixam o país natal vão para o estrangeiro por alguma razão ou razões que se podem derivar de uma destas causas gerais -

Enfermidade do corpo,

Imbecilidade do espírito, ou

Necessidade inevitável.

Será suficiente para o meu leitor, se é que ele próprio já se viu na qualidade de viajante, que ele possa, com o devido estudo e reflexão sobre o assunto, determinar a sua própria posição e categoria no catálogo.

Saber que posso restringir a razão do meu exílio a apenas três causas dá-me algum conforto e embora ainda tenha de ler o resto do livro para tentar determinar a causa geral do meu exílio, intuo já que tenha sido uma perfeita conjugação das duas últimas.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Inventário abreviado (e muito atrasado) de um fim-de-semana prolongado em Paris: uma viagem de Eurostar (ida e volta), dois crepes com nutella, uma sopa de cebola e queijo gratinado, dois passeios de barco, um exposição do Lucian Freud no Pompidou, duas brancas de neve, três viagens de carrossel, três pequenos-almoços completos na companhia de quatro bons amigos.

domingo, 9 de maio de 2010

Participei hoje na cerimónia de comemoração do Dia da Europa, na Abadia de Westminster. Em termos de missas, sou mais ou menos como o Obélix e a poção mágica dos gauleses, caí num caldeirão quando era mais novo e agora sinto necessidade de as manter ao mínimo. Mas o edifício e a coreografia da cerimónia não me deixaram indiferentes. Num espaço onde foram coroados muitos reis, houve leituras de epístolas em alemão, romeno e francês, um coro búlgaro, muitos salmos ingleses e crianças de diversas nacionalidades europeias. Depois ainda estive na Jerusalem Chamber, onde, segundo me disseram, morreu Henrique IV, que tinha projectos de viajar até à Terra Santa mas teve de contentar-se por cumprir o seu destino muito mais perto de casa. No final, regressei numa carruagem de metro quase vazia, de fato de gravata, a ouvir Sonic Youth (Kotton Krown): I'm wasted in time and I'm looking everywhere / I don't care where / Angels are dreaming of you.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Recebi há tempos pelo correio um livro com o título: Opening for White According to Kramnik. Como leitor de Borges, um título assim não me poderia deixar indiferente, independentemente do conteúdo do livro. É, como é óbvio, sobre xadrez e talvez aconselhe formas de se ultrapassar o dilema do jogador perante o jogo em branco. Como não sei mais do que a forma como cada peça se deve mover no tabuleiro, é também óbvio que o livro não é para mim. Em breve será entregue a quem sabe quem é o Kramnik e está mais interessado do que eu em conhecer a sua abertura com as brancas. Depois restará apenas na minha cabeça a frase Opening for white according to Kramnik, Opening for white according to Kramnik..., incompreensível e musical, a sugerir sacrifícios de peões e movimentos enviesados de cavalos.