quinta-feira, 29 de abril de 2010

Hoje acordei às 5h41 da manhã. Não porque estivesse com insónias ou porque tenha campos para lavrar, mas porque o D. tem acordado por volta dessa hora durante toda a semana. Recorrendo ao método científico e isolando variáveis, acabei por consultar um site meteorológico com a tabela do nascer do sol em Londres: 5h42 (segunda), 5h40 (terça), 5h38 (quarta), 5h37 (quinta). A coincidência é demasiada para ser considerada um acaso. Tendemos a esquecer-nos da nossa natureza biológica e de que os nossos antepassados viveram forçados ao ritmo dos elementos, das fases do Sol e da Lua. Durante milhares de anos a humanidade observou os astros para tentar conhecer o seu destino, profetizar a queda de impérios ou navegar por oceanos desconhecidos. Eu fico apenas a saber a que horas vou acordar amanhã. E, pela tabela, será às 5h35.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Ofereceram-me finalmente o 2666 do Roberto Bolaño. É o mais próximo que um objecto pode estar de incorporar o ideal romano de mente sã em corpo são. O cérebro vai acompanhando as aventuras de Pelletier, Espinoza, Morini e Norton, enquanto os bíceps vão ficando mais definidos por terem de suportar o peso de um livro de mais de mil páginas. Pesei-o na balança de cozinha: 1,292 Kg. Se fosse farinha, dava para três ou quatro bolos-rei. Na parte em que fiquei hoje, alguns dos personagens encontram-se num café pequenino de uma heterodoxa galeria que se dedica à exposição de quadros, mas também à venda de livros usados, de roupa usada e de sapatos usados, lugar de encontro em Hyde Park Gate. A rua fica relativamente próxima da minha casa e já tinha pensado escrever sobre ela, mas por motivos diferentes, que descreverei noutra altura. Um destes dias passo por lá para ver se a galeria é também ficcional.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Eyjafjllajokull: apesar de parecer um erro de digitação, é o nome do vulcão que me está a dificultar uma viagem marcada a Portugal para um casamento. Em desespero, fui ao Google Maps em busca de alternativas ao transporte aéreo: 20 horas e 24 minutos de automóvel ou 7 dias e 14 horas a pé (o que parece incluir uma travessia a nado entre Portsmouth e Bilbao). Na impossibilidade de discutir com um vulcão, que grita neste momento muito mais alto do que eu, tenho de adoptar a atitude britânica deste senhor entrevistado pela BBC:

"I'm meant to be going to Lanzarote. We've travelled from Oban, leaving at 3am. Now we've decided we might as well just go home and do a bit of gardening."

domingo, 11 de abril de 2010

Viagem de estudo


Nenhum museu é feito para se ver numa tarde, especialmente o Britânico. Mesmo que estivesse vazio, o edifício, por si só, merecia ser visitado, pela feliz mistura de traços clássicos e contemporâneos. Depois de ver cinquenta múmias e três mil e quinhentos calhaus, já me apetecia encostar numa cariátide ou deitar-me num sarcófago, mas continuei a deambular pelas salas. Os britânicos sempre gostaram de trazer recordações das suas viagens de estudo pelo mundo e de trocar bens intangíveis, como o sistema representativo ou a arte de jogar cricket, por outros mais concretos, como esculturas e peças em bronze. Ainda tentei visitar a sala de leitura (agora remodelada), onde termina tragicamente o filme Blackmail, de Hithcock, mas estava encerrada. Regressei através de Covent Garden e do Soho e, já em casa, aproveitando que estou sozinho por uns dias, dediquei-me a uma actividade que se vai tornando muito rara: tomar um longo banho de imersão. Não fosse o eterno dilema de tentar, em vão, manter simultaneamente submersos os ombos e os joelhos, teria sido um bom final de fim-de-semana.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

15º à sombra

Apesar de ter tido defensores tão célebres quanto Montesquieu, a teoria de que o clima molda o carácter dos povos é, quanto muito, exagerada. Por vezes, no entanto, sou forçado a suspender o meu cepticismo. Os povos do Sul estão acostumados a proteger-se do calor. Lembro-me de na infância ver os agricultores, em Trás-os-Montes, irem para o campo com camisas de mangas compridas e casacos grossos, em pleno Verão, sob o lema de que «o que protege do frio, também protege do calor». Da mesma forma, os beduínos não usam manga curta para atravessarem o deserto. Mas aqui, mais a norte, basta que a temperatura suba acima dos quinze graus para que comecem a voar cachecóis, luvas, casacos e camisolas e os londrinos tentem encontrar um bocado de relva no meio da cidade para se poderem deitar a apanhar banhos de sol.

Todas as actividades que durante os meses anteriores eram realizadas entre paredes são trazidas para o espaço público: almoçar, ler, dormir uma sesta, etc. Nunca um alentejano, por exemplo, se lembraria de se sentar num banco na praça central da sua vila, a apanhar banhos de sol, nas horas de maior calor. Geralmente esperam pela «fresquinha». Claro que os britânicos estão fartos de «fresquinha» e começam logo a ocupar as superfícies com mais sol, como caracóis. Depois de bastantes meses aqui, começo a compreendê-los perfeitamente. Se tudo continuar assim, este fim-de-semana sacudo o pó da manta e mudo-me para o relvado na parte de trás da nossa casa.

terça-feira, 30 de março de 2010

You've got mail

No nosso prédio - como julgo que na generalidade do Reino Unido – o correio não é distribuído de forma individual. A correspondência é deixada, num maço, na caixa de correio do prédio e cada pessoa retira as cartas que lhe são dirigidas. A consequência não intencional deste método é ficarmos a conhecer os nomes de todos os vizinhos, assim como os seus gostos e personalidades.

Pode ficar a saber-se bastante sobre uma pessoa pelas revistas que assina, as cartas que recebe e o junk mail que lhe é endereçado. Ficamos a saber, por exemplo, que um vizinho aderiu a um ginásio, outro tem familiares na Austrália e um outro se interessa por ornitologia. A situação torna-nos também conscientes da necessidade de nos refrearmos na utilização do Royal Mail. Julgo que ninguém no prédio teria coragem de encomendar o catálogo de uma sex-shop ou de assinar a Penthouse.

Como só chegámos há relativamente pouco tempo, também só aos poucos vamos abandonando as nossas desconfianças. Como já referi antes, aderi a um serviço de dvds por correio. Noutra situação, teria sempre receio de que o filme fosse visto primeiro por todos os vizinhos e só depois colocado novamente na portaria. Mas isso nunca aconteceu. O envelope está sempre lá pousado, intacto à minha espera, embora sempre que pegue nele verifique se não tem uma anotação do género: «Gostei, mesmo não sendo um dos filmes mais interessantes do neo-realismo italiano. É pena ele morrer no final. Atenciosamente, 3.º G.»

quarta-feira, 24 de março de 2010

Quando Hamlet, Príncipe da Dinamarca, fica louco ou se finge de louco, é enviado para Inglaterra. A decisão, por si só, é já bastante reveladora. No entanto, é interessante ler também, na cena do cemitério, o diálogo entre Hamlet e um dos coveiros – que não sabe que está a falar com o Príncipe da Dinamarca –, sobre os motivos mais pormenorizados que justificaram o exílio:

Hamlet: Ay marry, why was he sent into England?
First clown: Why, because he was mad; he shall recover his wits there; or if he do not, it’s no great matter there.
Hamlet: Why?
First clown: ‘Twill not be seen in him there, there the men are as mad as he.

O facto de ter sido eu próprio a querer vir para Inglaterra apenas prova que os loucos têm momentos de lucidez, nos quais buscam a cura. Talvez volte recuperado ou nunca chegue a recuperar, mas entretanto parece que estou em boa companhia.

sábado, 20 de março de 2010

Hoje, pela segunda vez na vida, assisti a um filme em 3D. A primeira foi nos anos 80, quando fiquei a pé até mais tarde a ver O Monstro da Lagoa Negra na RTP. Eu e a minha irmã mais velha partilhámos o par de óculos de cartão que a minha mãe comprou na papelaria, mas não conseguímos ver absolutamente nada de extraordinário. Julgo que só tive um sentimento de anticlímax semelhante muitos anos mais tarde quando Portugal perdeu com a Grécia na final do Europeu. Mas a tecnologia (ao contrário da qualidade futebolística) melhorou bastante. Claro que fui apanhado de surpresa, porque não sabia que o Alice in Wonderland do Tim Burton era em 3D e que, por isso, teria de sentar-me numa sala de cinema ao lado de dezenas de outras pessoas de óculos escuros, como uma multidão de ressacados. Quanto ao filme, é uma espécie de Alice meets Senhor dos Anéis e Matrix. A Rainha de Copas cita Maquiavel: «É melhor ser-se temido do que amado», mas o final é bastante mais suave. Agora tenho de ir, estou muito atrasado, mesmo muito atrasado...

quarta-feira, 17 de março de 2010

É muito conveniente ter o Speaker’s Corner a quinze minutos do local de trabalho. Quando estamos mais aborrecidos podemos ir até lá insultar alguém. Mesmo não estando a ter um dia muito difícil, decidi ir experimentar na hora de almoço. Mas para lá chegar tive de contornar o Serpentine, o lago que atravessa Hyde Park. Estava um início de tarde muito agradável, com pessoas sentadas na relva e nos bancos, aves aquáticas a tentarem comer o almoço dos turistas e alguns barcos de recreio no meio da água. Quando cheguei ao outro lado estava demasiado bem disposto para querer dizer mal de alguma coisa. Também segui o conselho e não mergulhei da ponte.


domingo, 14 de março de 2010

O Gonçalo M. Tavares criou um bairro imaginário, de habitantes com com nomes de escritores e hábitos estranhos. Eu começo aos poucos a descobrir o meu. A cerca de trezentos metros do Sr. Mill viveu durante alguns anos o Sr. Pound. Como não foram contemporâneos, é difícil imaginá-los a encontrarem-se num café local e conversarem sobre filosofia ou poesia. Provavelmente discordariam sobre a maioria das coisas. A casa onde habitou Ezra Pound fica numa reentrância da Kensington Church Walk, uma via estreita por onde se pode escapar do movimento da rua central do bairro. Andando um pouco, chegamos ao pátio de uma igreja de estilo gótico (St. Mary Abbots), com lápides e plátanos espalhados de forma desordenada. O ruído dos automóveis quase não se ouve e sentimos que poderíamos estar numa pequena vila do interior. A ruela estende-se depois com uma sucessão de lojas minúsculas de ar antigo. Foi enquanto aqui vivia que Pound se tornou numa das principais figuras do modernismo, que mais tarde transportou consigo para Paris e Rapallo. Foi talvez também aqui que escreveu este poema:

The Garden


Like a skein of loose silk blown against a wall,
She walks by the railing of a path in Kensington Gardens,
And she is dying piece-meal
To a sort of emotional anæmia.

And round about there is a rabble
Of the filthy, sturdy, unkillable infants of the very poor.
They shall inherit the earth.

In her is the end of breeding.
Her boredom is exquisite and excessive.
She would like some one to speak to her,
And is almost afraid that I
Will commit that indiscretion.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Após um interregno de mais de vinte anos, passei um dia inteiro a brincar com carros de bombeiros, rebocadores, betoneiras e outros veículos de quatro rodas em miniatura. E o D., a quem os novos brinquedos pertencem, estava quase tão entusiamado quanto eu. Não sei muito bem de que forma as teorias da educação evoluiram desde Locke, mas bastou apenas um ano para transformar uma tábua rasa num miúdo. Curioso como todos os outros, sempre a tentar abrir portas, caixas e frascos, a lançar o caos sobre os livros das estantes mais baixas e a gatinhar pela casa com um carrinho numa mão. John Stuart Mill aprendeu Grego e Latim muito novo, eu prefiro que ele aprenda a enfiar berlindes em covinhas escavadas no chão.

terça-feira, 2 de março de 2010

Nunca fui partidário da teoria de que a natureza humana é imutável. Mas senti um arrepio na espinha ao ler as páginas iniciais do Satyricon de Petrónio. O livro foi escrito provavelmente no século I e no seu início Petrónio descreve como a juventude do seu tempo está perdida, tudo por culpa do sistema educativo e dos pais, que não exercem suficiente disciplina. Depois afirma que já não se faz arte (teatro, poesia e pintura) como antigamente (Sófocles, Eurípedes, Homero, etc). Ainda não acabei o livro e não ficarei muito surpreendido se, entre a descrição de uma ou outra orgia, venha a encontrar afrase: O que isto (Roma) precisava era de um Nero em cada esquina.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Este livro que tenho agora na mão tem uma dedicatória de 1998 e foi-me oferecido por dois amigos. Há muito que eles deixaram de namorar e vivem mesmo em países diferentes. O livro, esse, já mudou pelo menos três vezes de casa, sempre a entrar e sair de caixotes sem nunca ser lido. Achei que tinha chegado a altura certa para o retirar da estante. É de Bruce Chatwin e chama-se O que Faço eu Aqui. A frase foi aparentemente retirada de Rimbaud, que a terá utilizado, em francês, numa viagem pela Etiópia. Mas a frase original terminava com um ponto de interrogação, o que lhe dava a forma de lamento. O título de Chatwin é apenas declarativo, de quem não espera, ou sequer quer, uma resposta.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Num dia de tempo verdadeiramente londrino, refugiámo-nos no interior da Tate Modern. Em quatro ou cinco salas, concentram-se obras representativas do melhor que se fez na primeira metade do século XX. Depois, mais acima, avança-se para o período a que os críticos de arte dão o nome de «Isto até o meu filho de três anos fazia». Percorrer um museu como a Tate em duas ou três horas é como tentar ver um filme em fast forward: apanhamos o enredo geral, mas perdemos os pormenores mais interessantes dos diálogos e das expressões faciais dos actores. A única solução é fazer pausa nos quadros que nos captam mais a atenção e depois continuar a andar pelas salas sem remorsos. Hoje parei algum tempo em frente de Metamorfose de Narciso de Salvador Dalí, onde uma figura ajoelhada junto a um lago dorme ou esconde simplesmente o próprio rosto que se transforma. Narciso permaneceu imóvel em frente ao lago enquanto nós saímos para a chuva, atravessámos a Millenium Bridge e fomos engolidos por uma estação de metro.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Descobri que vivo na circunscrição eleitoral onde, em todo o Reino Unido, o Partido Conservador teve a maior vantagem nas últimas eleições. Apesar de saber que mais de metade das pessoas do bairro são tories, não lhes levo a mal e continuo a sorrir para os meus vizinhos como antes. O conhecimento desse facto apenas reforçou a minha determinação em manter sempre as conversas de ocasião nos limites rígidos da meteorologia. Agora, no entanto, sempre com medo que ao comentar «What a lovely weather today» a pessoa ao meu lado no autocarro responda «Yes, perfect for fox hunting.»

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A ascensão e a queda

O número e qualidade das revistas literárias publicadas no Reino Unido torna possível escrever-se (e, consequentemente, ler-se) sobre livros de todas as áreas. E com muita liberdade. Foi por isso sem surpresa que li, numa das publicações mais sérias e importantes, uma recensão ao livro Manhood: The Rise and Fall of the Penis, da qual transcrevo o primeiro parágrafo:

This was a stiff assignment: three hundred pages of information, lore, reflection and clinical data written up by a Dutch urologist in a quirky style that veers between flaccid exposition and penetrating analysis.

Aditamento

Em Tristes Trópicos, Claude Lévi-Strauss escreve sobre uma tribo, os Nambikwara, cujos membros não usam nomes próprios, pelo menos em frente a estranhos. Lévi-Strauss conta que começou a conhecer o nome de alguns deles pelas crianças que, como brincadeira ou para se vingarem umas das outras, lhe vinham sussurrar segredos (nomes) junto às orelhas. Aos poucos, deixou de ser estrangeiro.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Recollections of a wild radish*

Li os principais romances de José Saramago, mas nunca folheei sequer os diários. Fui por isso surpreendido ao ler uma recensão da autobiografia da infância do escritor na Literary Review, que começava com a história do registo de nascimento. Aparentemente, o funcionário estava bêbado e acrescentou ao apelido (Sousa) a alcunha pela qual a família era conhecida (Saramago). O caso não deve ser único ou, até, o mais embaraçoso. No mesmo texto, que consegui encontrar na internet, Saramago fala da sorte de a sua família não ter por alcunha, como outras da Azinhaga do Ribatejo, Pichatada, Curroto e Caralhana. Acredito que nunca teria recebido o Nobel. Eu, que sou urbano-depressivo, mas tenho uma aldeia, onde nunca vivi e sempre passei os verões, tenho um problema idêntico. Lá, pelo menos para as pessoas mais velhas, o meu apelido é Carvalheira, por a casa de família ficar numa encruzilhada de carvalhos centenários, dos quais restam ainda dois. Como no Tabacaria, de Álvaro de Campos, qualquer dia desaparecem os carvalhos e depois a alcunha de família e a língua em que era dita. Até lá, seremos os carvalheiras. Na verdade, fora dos bilhetes de identidade, existem poucos sousas, silvas, rodrigues, barrosos, gonçalves, martins, alves, cunhas. Quase todos são conhecidos por um nome diferente, como um código secreto que se aprende ao crescer e é, por isso, impenetrável a estranhos.

*Título da recensão de Miranda France.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

The knights who say «Ni»

A experiência de estar numa sala de cinema escura, anónimo entre estranhos, é insubstituível. Mas por vezes temos de contentar-nos com prazeres menores e, por isso, inscrevi-me no Lovefilm. Não sei se existe em outros países, mas é um sistema de aluguer de filmes que combina a Internet e os correios de sua majestade. Pagamos uma quantia fixa por mês, escolhemos uma lista de filmes no site e os dvds chegam-nos por correio passado pouco tempo. Podemos levar o tempo que quisermos a vê-los e, depois, fechamos o envelope de resposta paga e colocamo-lo em qualquer marco do correio. Passados alguns dias, recebemos os filmes seguintes da nossa lista. Para além de tudo o mais, a vantagem é que tem sessenta e cinco mil filmes e séries para escolha. É possível encontrar filmes de todas as décadas e categorias. A nossa lista tem coisas como As Tears Go By (Wong Kar-Wai), Broken Embraces (Almodóvar), Revolutionary Road (Sam Mendes) e Paris Nous Appartient (Jacques Rivette). Ontem à noite vimos The Holy Grail, dos Monty Python. Já conhecia partes do filme, dividido em sketchs (como o que dá o título a este post), mas nunca o tinha visto do princípio ao fim. O único problema foi ter perdido algum tempo, no menu do dvd, a tentar retirar as legendas em sueco que aparecem no genérico inicial. Só ao fim de dez minutos percebi, com alguma vergonha, que fazem parte do filme original.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Fui conhecer a Foyles, cinco pisos de livros em Charing Cross, uma das ruas menos bonitas e mais interessantes da cidade. Saí da boca do metro, passei pelas filas de balões vermelhos suspensos do início da Chinatown e, depois, por um sapato de mulher gigante a anunciar o musical Priscilla, a Rainha do Deserto. A livraria fica mais ao fundo da rua. Antes ainda entrei numa Pizza Hut, para os livros não me cairem no estômago vazio. Com tudo isto, tive apenas vinte minutos da hora de almoço para percorrer as estantes do terceiro andar. Andei por lá como um felino entre erva alta, à espera que as gazelas se aproximassem do lago para beber. Ao fim desse tempo, tive de parar de percorrer as lombadas e endireitei o pescoço, já com dois livros debaixo do braço, que comecei logo a digerir numa carruagem de metro.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Para a R., o A. e a I.

Por força das circunstâncias, a comunidade dos expatriados está mais predisposta a conhecer pessoas novas. Foi por isso que nos encontrámos, no passado fim-de-semana, sentados à mesa a almoçar e a conversar alegremente com uma portuguesa, um escocês, dois ou três búlgaros, uma austríaca e um inglês («and very proud of it.»), nenhum dos quais conhecíamos anteriormente. A única vaga ligação era uma amiga de uma amiga. Agora, espero, também nossa amiga. As crianças mais velhas subiam e desciam os degraus, saltavam em cima das almofadas e, as mais novas, simplesmente dormiam ou choravam no colo dos pais. Divertimo-nos. A nossa situação actual faz lembrar os tempos da faculdade, quando os estudantes de fora de Lisboa, com a liberdade de não possuirem ligações familiares a que voltar ao fim da noite, se reuniam nos grupos mais estranhos e interessantes. Nós esforçávamo-nos por acompanhar o ritmo e as actividades, mas inevitavelmente tínhamos de correr para apanhar o último comboio. Agora somos nós que vemos o comboio partir, ao longe, e continuamos a conversar.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Literatura comparada

Uma amiga, sempre com ideias boas e generosas, pediu-nos livros para iniciar uma biblioteca para presos que, nas actuais funções, tem de visitar e confortar. Numa primeira passagem pelas minhas estantes apercebi-me de que não ia ser uma tarefa fácil. Escolher literatura para pessoas com todo o tempo do mundo para se reverem nas personagens das histórias que lêem é uma responsabilidade demasiado grande, mesmo a um continente de distância. Comecei por eliminar os mais óbvios, como Crime e Castigo (Dostoievski), Expiação (Ian McEwan), O que Faço Eu Aqui (Bruce Chatwin), A Eternidade Não é De Mais (François Cheng), Os Inimigos do Sistema (Brian Aldiss), O Assalto (Harry Mulisch), O Livro da Confissão (John Banville) ou Sem Destino (Imre Kertész). Pus de lado também os que, pela espessura e peso, pudessem servir de arma, tornando-me cúmplice involuntário de um crime: A Montanha Mágica (Thomas Mann), Ulisses (James Joyce), D. Quixote (Cervantes), Metamorfoses (Ovídio) ou O Jogo do Mundo (Julio Cortázar). Depois os que, pela gramagem leve das folhas, pudessem acabar, de forma inglória, em centenas de mortalhas, como a edição da Caminho das Obras de Carlos de Oliveira ou a Bíblia. Isto tudo, J., para te tentar explicar porque é que, com toda esta análise de risco, ainda não te chegou aí desse lado do Oceano um único volume.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Too hot to trot

Para me abrigar do frio, entrei numa das casas de apostas que existem espalhadas pela cidade de Londres. São sítios curiosos, de paredes forradas com painéis semelhantes aos antigos horários de comboios das estações da CP, nos quais se encontra escrito, num código apenas compreensível para os iniciados, nomes de cães ou cavalos, nomes de pistas e probabilidades de vitória. Noutra parede, em cerca de dez plasmas diferentes, passam imagens de corridas de cavalos, cães, automóveis e jogos de futebol. Pode fazer-se apostas sobre quase tudo, desde a equipa que vai vencer o mundial até, creio, o partido que vai vencer as próximas eleições. Estavam lá apenas outras três pessoas: uma dona-de-casa de meia idade, que entrou e saiu depois de apostar qualquer coisa no balcão, um rapaz interessado em ver um dos jogos de futebol e um homem que acompanhava corridas de galgos e, no final, rasgava invariavelmente os bilhetes das apostas perdidas. Percorri as longas listas, por curiosidade. Numa das pistas, num qualquer lugar distante do país, iam correr lado a lado os cavalos Too Hot to Trot, Baar Med, Fettucini e Dog Violet. Ainda me senti tentado a apostar no primeiro, mas não saberia como e, por isso, enrolei o cachecol e saí para a rua sem saber quem venceu a corrida.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010


Hora de almoço passada em Green Park, a fotografar e a ouvir Blonde Redhead.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

The lazy sunbather

A BBC Radio 4 tem um programa chamado Desert Island Discs, em que os entrevistados são convidados a explicar quais as músicas que carregariam debaixo do braço em caso de naufrágio. O Morrisey foi a um dos últimos programas. Não consegui ouvir a entrevista, mas retirei a lista do site da BBC. O antigo vocalista dos The Smiths levaria para uma ilha deserta músicas dos Ramones, The Velvet Underground e Iggy & the Stooges, bandas que costumam ser ouvidas em ambientes mais escuros e urbanos, como salas de concerto ou quartos de adolescente. Duas das outras escolhas são mais óbvias para quem está sozinho numa ilha: Come and Stay With Me de Marianne Faithfull e Sea Diver de Mott the Hoople. O próprio Morrisey tem uma música com o título The Lazy Sunbathers, sobre pessoas que não se importam que o mundo esteja a explodir à sua volta enquanto apanham banhos de sol. Um grupo a que não me importava de juntar, quando a temperatura ronda os 0º. Por azar, naufraguei numa ilha pouco deserta e com pouco sol. Mas felizmente com boa música.

(Obrigado, Vítor. Estou neste momento a descarregar os 4Gb de música que trouxe de tua casa.)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Os nomes familiares perdem significado, especialmente se designarem lugares ou ruas. De vez em quando, podemos ser surpreendidos por uma designação que envolva, por exemplo, as freguesias dos Prazeres ou do Rego, mas em geral andamos por Lisboa sem perder muito tempo a olhar para as placas. Quando mudamos para uma nova cidade, é diferente. É muito fácil sermos surpreendidos com nomes de ruas que os locais já interiorizaram. Perto de nossa casa há, por exemplo, uma pequena rua com nome de álbum pop: Strangways Terrace. Depois, se andarmos bastante a pé pela cidade, podemos encontrar lugares como Crutched Friars (Frades com Muletas), Petty France (França Mesquinha), Pudding Lane, Cock Lane, Gutter Lane, Flask Walk, Half Moon Crescent, Inner Circle, Adam and Eve Mews, Nevern Square, Lupus Street, Prima Road, Amen Corner, World's End ou Unicorn Passage. A literatura não teria conseguido conceber um mapa mais estranho, onde é muito fácil perdermo-nos, especialmente se nos encontrarmos em Bliss Crescent (Êxtase Crescente)*.

*As traduções entre parêntesis são, obviamente, demasiado literais e erradas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Abaixo de zero

Não chove nem neva, mas o termómetro hesita entre o positivo e o negativo. Toda a humidade se transformou numa poeira fina de gelo que cobre relvados, gradeamentos, automóveis, ruas. Uma película semelhante à que cobre uma caixa de gelado assim que a retiramos do congelador. Parece que estamos todos a viver no interior de um grande frigorífico e, como o processo evolutivo não nos preparou para a hibernação, tenho de continuar a fazer as actividades diárias normais: sair de casa, esperar pelos transportes públicos numa paragem gelada, ler umas páginas do livro do Joan Margarit – que comprei nas férias – na parte de cima do autocarro, andar até ao trabalho em passo acelerado antes que as cartilagens das orelhas congelem e fiquem quebradiças. Assim que as mãos recuperarem a sensibilidade vou dando mais notícias. Bom Ano Novo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Está a nevar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os náufragos têm de reconstruir rotinas antigas num espaço que só aos poucos vão começando a conhecer. Desde que cheguei a Londres, o cinema foi um dos principais problemas. A nossa casa fica a cerca de cento e cinquenta metros de um, mas pertence a uma cadeia de salas onde apenas de vez em quando é projectado um filme menos comercial. Por outro lado, os britânicos descontam as horas de sol a menos que há a esta latitude nos horários dos espectáculos. As últimas sessões começam por volta das 20h30, demasiado cedo para quem tem de ajudar a pôr os miúdos a dormir antes de sair de casa. Aproveitando a visita de familiares, que me substituíram na tarefa, fui explorar um cinema de Notting Hill, o Coronet.

Os cinemas independentes são iguais em toda a parte: pequenos, escuros, com cadeiras gastas e decoração antiquada. Enfim, perfeitos. Neste, em vez de pipocas, o público levou para o interior da sala copos de plástico com cerveja e outras bebidas alcoólicas, o que se justifica perfeitamente durante retrospectivas de cinema francês, mas parece desadequado em outras situações. Fui ver A Serious Man dos irmãos Cohen. Gostei do filme e de tudo o resto. A meio, uma pessoa começou a ressonar de forma sonora e, mais tarde, um balão que se tinha mantido no tecto da sala começou a pairar em frente ao ecrã e a interagir com o argumento. No final, apanhei o autocarro 328 com destino a World’s End, mas saí algumas paragens antes e por isso não posso contar-vos como acaba.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Os encontros com antigos colegas de faculdade são sempre ocasiões para verificar como um grupo de pessoas que conviveu de forma intensa durante um curto espaço de tempo se dispersou depois em todas as direcções. É provável que na altura tenhamos falado sobre planos para o futuro, no terraço, com o som da música a sair pelas portas abertas da sala F, mas a realidade ultrapassou essas ficções. O M. explora petróleo na Sibéria, o D. está na Dinamarca, a E. na Bélgica e o A. aqui, como eu. A maioria continua em Portugal, onde é difícil ler um jornal, ver televisão ou ouvir rádio, sem ler, ver ou ouvir alguém conhecido. Uns escrevem sobre automóveis, outros sobre futebol, política, economia, história e até romances. Alguns, poucos, entraram na política. Uns casaram uns com os outros. A maioria permanece anónima e feliz. Lembrei-me disto porque fui surpreendido, quando assisti há pouco pela internet à cerimónia de entrada em vigor do Tratado de Lisboa, ao reconhecer a Ana em cima do palco a cantar as músicas do Rodrigo Leão. Apesar de não ter pertencido ao meu grupo de amigos mais próximo, na faculdade, lembro-me das poucas vezes que na altura a ouvi cantar, para espanto e êxtase colectivos. Julgava que ela escrevia sobre música e afinal são outras pessoas que escrevem sobre ela.

domingo, 22 de novembro de 2009

Os relatos de náufragos são, em geral, histórias de homens desesperados em lugares paradisíacos. Robinson Crusoe naufragou no arquipélago Juan Fernández, mas tinha uma vida solitária. Os amotinados do Bounty fizeram-se naufragar na ilha de Pitcairn, no Pacífico Sul, mas acabaram por se matar uns aos outros. Os passageiros do Sea Venture naufragaram na costa das Bermudas, em 1609, mas trocaram a ilha pelo continente logo que conseguiram construir outro navio. Nós não estamos desesperados, nem a nossa ilha é muito tropical. Com a aproximação da época, os parques têm feiras de Natal, com carrosséis luminosos, ringues de patinagem no gelo e barracas de comida a fumegar. Escurece muito cedo, mas isso permite-nos desfrutar durante mais horas das iluminações de Natal, que sobem pelos troncos das árvores como trepadeiras. Está frio e chove, mas não dentro dos museus. Enfim, vamos incendiando simbolicamente os restos do barco que nos trouxe, para nos esquecermos dos planos de regresso. Com bastante sucesso, este fim-de-semana.

terça-feira, 17 de novembro de 2009


Por motivos de trabalho, tenho de atravessar o St. James' Park uma ou duas vezes por semana. Esta manhã estava assim, com sol sobre Whitehall e o London Eye a rodar, ao fundo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Os ingleses estão a esforçar-se para que eu não tenha saudades de casa. Não há jornal ou ecrã de televisão em que não apareçam as seis letras da palavra Lisbon. E nem o facto de, em geral, a utilizarem como um insulto - por se referir ao Tratado -, me deixa menos satisfeito. Os jornais conservadores usam o nome da nossa cidade como se fosse o de uma batalha perdida da Guerra dos Cem Anos. Para muitos deles, a Europa só começa do outro lado do Canal e olham com desconfiança tudo o que o tente atravessar, seja navios espanhóis ou regulamentos de Bruxelas. Nos últimos tempos, por exemplo, esgotaram-se as lâmpadas incandescentes nas lojas, por se ter sabido que a legislação europeia vai proibir que sejam comercializadas. A ideia de que a medida pode ser boa, por reduzir o desperdício energético, é afastada logo à partida pela proveniência. Tenho a certeza de que muitos britânicos não se importariam de passar as próximas semanas a acender milhares de lâmpadas de 60 watts ao longo da costa, para que em Calais percebessem o que pensam das ideias luminosas da Comissão Europeia.

(Dito isto, diverte-me bastante observar o espírito independente dos britânicos.)
O vento outonal soprava sobre a Inglaterra. Arrancava as folhas das árvores e elas caiam, esvoaçantes, sarapintadas de verde e amarelo, ou deixava-as pairar, flutuar em curvas largas, antes de aterrarem. Irrompendo em rajadas das esquinas, nas cidades, o vento arrancava um chapéu, aqui, e elevava, alto, um véu por cima da cabeça de uma mulher.

Virginia Woolf, Os Anos

domingo, 15 de novembro de 2009

93.5 FM

A maioria dos canais de rádio e de televisão britânicos são tão maus, ou piores, do que os portugueses. Ainda não consegui encontrar uma rádio com música tão boa como a da Radar, apesar de grande parte das correntes alternativas e independentes ter tido origem neste lado do Canal. Ainda assim, encontram-se alguns casos interessantes, como o da BBC Radio 4, que leva o conceito de serviço público bastante a sério. Para além de boa informação, tem programas de debate com historiadores e filósofos que só estamos acostumados a ler à distância. Na semana passada, um grupo de historiadores e teólogos passou cerca de uma hora a debater o Cerco de Münster, de 1535, que pôs fim ao governo da cidade por uma seita anabaptista. E isto é só o começo. Ao fim da tarde, há sempre uma peça de teatro radiofónica e, ao início da noite, a leitura sequencial de partes de um livro. Hoje, pouco depois da hora de almoço, passou um programa de jardinagem, com telefonemas de ouvintes a pedirem conselhos sobre, por exemplo, a melhor época para plantarem determinado tipo de planta. Fiquei a saber que não vale a pena transplantar plantas de framboesa com mais de oito anos, porque são geralmente afectadas por um fungo a partir dessa idade. É como se o tempo tivesse recuado umas décadas e tivesse de ouvir a voz do Eng. Sousa Veloso entre serviços noticiosos da TSF ou da RDP. Neste momento, não sei a programação da Radio 4. Enquanto escrevo, ouço Devendra Banhart, na emissão online da Radar.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.

T. S. Eliot, The Waste Land
Está frio e muito vento. Regressámos a casa como no final de uma batalha, com o cabelo revolto e algumas varetas de guarda-chuva partidas. Agora, que a luz começa a desaparecer, lanchamos, ouvimos The National (Aligator) e observamos, pelas janelas da sala, as árvores a prosseguirem o combate que abandonámos a meio.

domingo, 8 de novembro de 2009

Hampstead Heath







Hampstead Heath, Novembro de 2009 (com agradecimentos à Gisela e ao Sanjiv).

A nice Guy

Apesar de parecer contraditório, os ingleses comemoram uma explosão falhada, há mais de quatrocentos anos, com fogo-de-artifício anual. Um grupo de conspiradores católicos planeou fazer explodir o edifício do Parlamento, no dia da sua abertura anual, em 5 de Novembro de 1605, com o rei e parte importante da nobreza no interior. A elite política de um dos maiores reinos da Europa teria sido decapitada com um só golpe. Os conspiradores, liderados por Guy Fawkes, foram enchendo de pólvora uma cave por baixo das Houses of Parliament, ao longo de semanas, e o golpe só foi descoberto algumas horas antes do início marcado para a detonação.

Nos últimos dias, temos comprovado que a tradição se mantém. Os estrondos e as luzes vão-se sucedendo, de forma descentralizada e interminente, por várias zonas de Londres. Pode comprar-se fogo-de-artifício no supermercado local. No nosso, o equivalente ao Pingo Doce, está na prateleira a seguir à do pão, o que não deixa de ser conveniente. Pode levar-se uma baguete para ir comendo enquanto se lança o engenho num dos parques, numa destas noites gélidas de início de Novembro. Há pouco vimos da janela da nossa casa mais um foguete a ser lançado do meio do campo de jogos de Holland Park. As luzes iluminaram por segundos os plátanos já quase sem folhas e depois fez-se noite outra vez.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Nursery rhymes

As nursery rhymes são canções repetitivas que as crianças inglesas aprendem na escola, para as ajudar a desenvolver a linguagem e a entoação característica das frases em inglês. A L. já canta algumas, mesmo sem conhecer o significado da maioria das palavras. Sabe cantar coisas como Twinkle twinkle little star, how I wonder what you are e Mary Mary quite contrary, how does your garden grow. Como acredito que a educação começa em casa, já sabe também o início de There's a light that never goes out dos Smiths e de Wild is the wind do David Bowie. Estamos agora a trabalhar no refrão do Love will tear us apart dos Joy Division.
Hoje de manhã, no 9 para Aldwych, um senhor de fato lia o equivalente inglês ao Jornal do Sexo, de forma compenetrada e séria, como se estivesse a ler o Times ou o Guardian. Só a sucessão de raparigas em tronco nú, página sim, página não, causava alguma estranheza – por estarmos quase em Novembro e já lhes dever apetecer uma camisolinha.
Aproveitámos a manhã de sábado para explorar melhor o nosso bairro. John Stuart Mill, uma das minhas maiores referências intelectuais, viveu a cerca de quinhentos metros de nossa casa, na Kensington Square. Talvez não tenha sido o mais brilhante dos filósofos britânicos, mas tentou dar resposta a algumas das perguntas mais importantes sobre a vida em sociedade, numa síntese entre especulação filosófica e intervenção cívica. A casa não é das mais bonitas da área (nem sei se é a original), mas fica numa praça recolhida, com um jardim no meio. Stuart Mill acreditava no desenvolvimento pessoal livre e diversificado, na tolerância e na originalidade. Tenho a certeza de que teria sido um bom vizinho se, para além de uma coincidência no espaço, tivéssemos vivido na mesma época. Não me parece que fosse pessoa para chamar a polícia para nos obrigar a pôr a música mais baixo ou para nos receber mal se um dia lhe batêssemos à porta para pedir uma chávena de açúcar.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Numa rápida pesquisa na Internet, para poder explicar ao médico inglês a minha condição, encontrei esta frase: «A rosácea está muito relacionada com o estado psicológico do paciente e piora com a ingestão de álcool, bebidas quentes, frio e vento.» Os itálicos, como se costuma dizer, são meus. É provável que tenha escolhido para viver o pior ambiente do mundo para o controlo de uma doença crónica, mas felizmente nada grave. Não me consigo lembrar de outro lugar em que a combinação de ingestão de álcool (gin e cerveja), bebidas quentes (chá e cerveja), frio e vento seja mais forte do que em Inglaterra. O estado psicológico, pelo menos, ainda está razoável.

domingo, 18 de outubro de 2009

Extracto bancário




Holland Park, 2009.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Todos os dias apanho um double-decker bus vermelho para o trabalho. A viagem demora um quarto de hora, por uma das avenidas que limitam o parque (Kensington Gardens + Hyde Park). Um dos aspectos positivos de estar num país estrangeiro é poder, como hoje, pegar* n'Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos – Prémio de Novelística Almeida Garrett, 1968, comprado por um euro numa feira do livro – sem receio de ter de aguentar os sorrisos de outros passageiros. De um lado do autocarro tenho uma fila quase ininterrupta de edifícios, do outro o parque, com pessoas a fazerem jogging matinal entre folhas secas de carvalho ou de fato, a caminho do trabalho. Em frente, a tapar a estrada que se estende até Hyde Park Corner, tenho este parágrafo:

E começo-te a contar uma história verdadeira que fala dum homem que entrou numa biblioteca para ler um livro banal e só de lá saiu cinco anos mais tarde depois de ter lido todos os livros. A sua cama era um rectângulo de 1,85 por 1,25 formado pelos seguintes livros: Werther de Goethe, o manuscrito original em papel de bíblia das Confissões de Rousseau, um ensaio de um filósofo persa sobre as trovoadas, uma tradução chinesa dos Lusíadas, um livro de culinária duma cortesã romana sobre as mil e uma maneiras de preparar arroz, Madame Bovary (dormia com ela todas as noites) de Flaubert e Uns Subsídios para uma Monografia sobre o Cair da Chuva, de um célebre navegador espanhol do século XVI, serviam-lhe de cabeceira. Comia na própria biblioteca e aí fazia as necessidades por detrás duma prateleira onde estavam guardados os clássicos franceses.

* Num sentido metafórico, por falta de mais uma mão.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O processo de mudança de casa só pode ser declarado oficialmente encerrado quando os livros, depois de um convívio aleatório nas estantes, voltam a ser colocados em ordem alfabética. A Virginia Woolf já tinha saudades da proximidade com Oscar Wilde, o Córtazar está aconchegado à Hélia Correia e o Lobo Antunes bem separado do Saramago.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Adaptador


Uma mudança para o Reino Unido não é acompanhada por um grande choque cultural. A maioria de nós passou a infância a ler livros d’Os Cinco e a adolescência a ouvir músicas dos Happy Mondays, The Smiths e The Cure. É provável que nunca tenhamos comido um pequeno-almoço inglês, mas não ficamos espantados por ver um prato com ovos estrelados e feijões com molho doce antes das dez da manhã. É nos pormenores que os britânicos nos apanham desprevenidos. Quando tentamos ligar uma ficha à corrente, parece que a tomada, com três pinos, nos grita: «–This is not bloody France». Temos também de raciocinar rápido e, quando uma placa nos diz que faltam três milhas para a próxima saída da auto-estrada, calcular se é cedo ou tarde para começar a desacelerar. Como trouxe comigo o meu automóvel com volante do lado certo, quando chego a um parque de estacionamento, tenho de retirar o cinto, atravessar o lugar do morto com o braço e esticar-me ao máximo para conseguir retirar o ticket com a ponta do pai-de-todos e do fura-bolos. Quando o lugar do passageiro está ocupado a situação é mais embaraçosa ou agradável, dependendo da companhia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Mary Wollstonecraft, uma das figuras mais importantes do movimento feminista, tentou suicidar-se duas vezes por causa de um homem. Da segunda vez, vestiu um dos seus vestidos de noite, andou durante algum tempo com ele à chuva, pelas ruas de Londres, para o tornar mais pesado, e depois atirou-se às águas do Tamisa. Felizmente, um barqueiro conseguiu salvá-la e ainda viveu mais alguns anos, creio que felizes.

De um ponto de vista técnico, o Tamisa é perfeito para tentativas de suicídio: tem muitas pontes, com muros baixos, águas escuras e uma cidade que, quando chove, é ligeiramente deprimente. (Deve ser raro alguém tentar suicidar-se no Tejo, que é demasiado largo, ou no Sena, que é demasiado bonito.) Por outro lado, o Tamisa teve barqueiros, durante séculos, e agora tem provavelmente uma polícia fluvial, com lanchas rápidas e polícias com coletes-de-salvação montados em potentes motas de água. Quem se atira – não que eu esteja a pensar fazê-lo, mesmo que chova três meses sem parar – sabe que tem boas probabilidades de sobrevivência e, de uma forma geral, preferirá não molhar o fato ou o vestido, que tanto trabalho dão a secar neste país. É, no fundo, o Eros e Thanatos de Freud aplicado ao Tamisa, com homens e mulheres à chuva, num equilíbrio precário entre as forças do amor e da extinção.

domingo, 4 de outubro de 2009

Da Vida das Marionetas


Portobello Road, ao sábado, é uma mistura entre Bairro Alto, Feira da Ladra e Feira de Espinho. Na rua que serpenteia por Notting Hill podemos comprar uniformes militares em segunda mão, roupa alternativa, velharias, música, crepes com chocolate, maçanetas de porta, fruta, legumes, letreiros, gravuras, etc. Existe também alguma animação de rua, como as duas raparigas acima, que manejavam as duas marionetas com um ar impassível. Para além do movimento ligeiro das mãos, apenas batiam um dos pés de forma ritmada, ao som da música, como se fossem marionetas que manejam marionetas, comandadas por um dono invisível.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Invasões bárbaras

Assim como nos dizemos Lusitanos e provavelmente somos descendentes de um qualquer outro povo que os combateu, expulsou ou sucedeu, também é difícil definir os londrinos. Há muito que os ingleses abandonaram a cidade. No nosso prédio, por exemplo, só existe uma família inglesa. Depois, para além de nós, portugueses, há um belga casado com uma holandesa e seus três filhos, uma mexicana casada com um alemão, uma indiana e um grego. O barbeiro a que fui cortar o cabelo está em Londres há quarenta anos, mas todos os anos passa férias na sua Puglia (Itália) natal (o calcanhar da bota, diz, apontando para o seu próprio calcanhar), a educadora da L. é eslovaca (Aga, de Agnieska), nos parques as crianças falam francês, italiano e russo e muitos dos empregados do comércio são portugueses. Só os motoristas de táxi (sobre os quais espero falar-vos mais tarde) são, na sua maioria, britânicos. A cidade foi internacionalizada. Poderia ter dito, tomada pelos bárbaros, não fosse a expressão ser pejorativa e eu ser um deles. Mas, ao contrário de Babel, onde a multiplicidade das línguas gerou a discórdia, todos acabam por encontrar forma de se entender e de ir construindo a Torre, a que podemos chamar de Londres.